

Europeus fizeram um jogo de controle total das ações ofensivas e encontraram alívio no fim, com gol de Ferran Torres para voltar a levantar a taça
Por João Vítor Marques e Pedro Bueno - Enviados aos EUA - No Ataque
Nova Jersey – A melhor definição para este time talvez remonte a mais de um século atrás. Em 1920, uma equipe dominante e ofensiva ganhou o apelido de “La Fúria” – uma menção a um histórico ataque à Antuérpia no século XVI. Referências bélicas à parte, a Espanha de 2026 talvez não seja tão impiedosa, mas é absolutamente dominante. E insistente. Em uma atuação de paciência e total apego ao DNA futebolístico neste domingo (19/7), a equipe se impôs sobre uma resiliente – e inofensiva – Argentina, venceu por 1 a 0 com gol de Ferran Torres no segundo tempo da prorrogação no Metlife Stadium, em Nova Jersey, e conquistou a Copa do Mundo pela segunda vez.
A supremacia dos números se impôs de forma feroz no gramado, castigado pelas fortes temperaturas de uma tarde de verão nos Estados Unidos. Encurralada, a atual campeã do mundo – que se despedia da lenda Lionel Messi em Copas – quase nada fez. Quase nada mesmo. Não chutou a gol nenhuma vez sequer em mais de duas horas de jogo e defendeu bravamente contra um adversário incisivo, ainda mais após a tola expulsão do volante Enzo Fernández no segundo tempo.
Dibu Martínez fez grandes defesas, a torcida que pintou as arquibancadas em alviceleste empurrou e os jogadores, como foi desde o início da competição, não se entregaram. Mas a luta não bastou diante de um adversário claramente superior coletivamente. Os espanhóis não sofreram lá atrás e tiveram a cabeça fria para insistir até o gol, que veio com Nico Williams no primeiro tempo da prorrogação – em lance anulado por uma falta bastante contestável.
Mas o destino reservava o título à Espanha. De forma absolutamente justa e diante de um rival que fez uma das piores atuações ofensivas em uma final de Copa do Mundo, a Fúria encontrou alívio em uma bonita jogada que começou com cruzamento de Pedro Porro, passou por uma escorada de cabeça de Williams e terminou com uma pancada de Ferran. No segundo tempo da prorrogação. De novo. Assim como foi em 2010, com Andrés Iniesta, naquele 1 a 0 sobre a Holanda na final na África do Sul.
Sob forte sol das 15h, a bola rolou para um primeiro tempo que parecia que ignoraria o calor. A Espanha se manteve fiel ao DNA que constrói há duas décadas e dominou a posse. Rodou de um lado para o outro para balançar a marcação argentina e, vez ou outra, pressionou a saída adversária.
Logo aos quatro minutos, Yamal recebeu em ótimas condições dentro da área e finalizou. A bola desviou na marcação, e Dibu Martínez pegou com as pernas. Instantes depois, um contragolpe da Argentina quase encontrou Messi livre – Unai Simón titubeou, mas chegou a tempo para afastar.

O início promissor, contudo, desacelerou imediatamente e a primeira metade foi de mais disputa territorial e estratégica do que de chances de gol.
Passaram-se mais de meia hora até a segunda finalização da partida: aos 38′, Oyarzabal bateu de fora, e Dibu caiu para encaixar. Basicamente, era um jogo do meio-campo. A Espanha trocava passes, enquanto os argentinos se defendiam e não tinham escape ofensivo.
Sem grandes emoções na final de Copa com menos finalizações (três, todas da Espanha) no primeiro tempo desde que a Opta passou a coletar dados da competição, em 1966. A única vez em que a Argentina foi ao intervalo sem chutar a gol.

Em uma Copa do Mundo “americanizada”, o intervalo foi ampliado para quase 30 minutos. Artistas como Madonna, Shakira, BTS e Justin Bieber se apresentaram sob direção artística de Chris Martin, vocalista do Coldplay. Os shows, regados a IA, trouxeram hits e uma mensagem final de amor, com aparições de nomes históricos do futebol brasileiro, como Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Pelé. Mas não empolgaram tanto as arquibancadas.
Ainda que as finalizações não saíssem, a Espanha rondava a área rival com muito perigo. Logo no início do segundo tempo, Otamendi e Montiel fizeram intervenções essenciais, e a Argentina parecia encurralada. Na frente, Messi estava apagado e pouco era acionado pelos companheiros. O cenário deixava a torcida alviceleste – maioria nas arquibancadas – claramente apreensiva.
Os jogadores da Argentina também sentiram o clima desfavorável e passaram a picotar o jogo à espera da parada para hidratação. Foi quando o técnico Lionel Scaloni percebeu que a mudança de um atacante por um volante (Paredes no lugar de Nico González) no intervalo não havia dado certo e trocou um volante (De Paul) por um atacante (Giuliano Simeone), aos 25 minutos. A tentativa era clara: ter mais a bola e possibilidades ofensivas.

A pressão espanhola crescia, e Dibu, às vezes sem passar tanta confiança, era acionado o tempo inteiro. A Argentina simplesmente não chegava ao ataque – passou os dois tempos sem finalizar nem uma vez sequer contra o gol de Unai Simón, algo sem precedentes. Do outro lado, a Espanha chutava, chutava, chutava, mas quase nunca em condições claras de marcar.
Quando o relógio já se encaminhava para o minuto final do tempo acrescido, um lance que poderia deixar a partida ainda mais favorável aos espanhóis: Enzo Fernández recebeu o cartão amarelo – o segundo em dez minutos, de maneira infantil – e foi expulso. O sinal para agitar a minoria roja nas tribunas.
Nos instantes finais, a Espanha ainda pressionou e teve uma grande oportunidade em cobrança de falta de Lamine Yamal, mas Dibu fez outra defesaça.
Na prorrogação, o cenário seguiu o mesmo: Espanha ao ataque e Argentina tentando resistir lá atrás. Os espanhóis chegaram a marcar com Nico Williams, mas o lance foi invalidado por uma falta bastante contestável.
Mas a insistência encontrou alívio logo na volta para o segundo tempo. Pedro Porro cruzou à área, o mesmo Williams escorou de cabeça e Ferran Torres fuzilou para as redes: explosão absoluta dos espanhóis, que viam o título se aproximar.
A partir daí, a Argentina tentou, mesmo com um a menos, colocar a Espanha contra a parede. Num contragolpe, Ferran fez mais um – mas o lance foi invalidado por centímetros.
Melhor defesa da Copa do Mundo, com apenas um gol sofrido, a Fúria resistiu sem grandes sustos e se emocionou com o segundo título na história!

© ClubeFM 2021 - Todos os direitos reservados