

Tiroteio em massa mata nove pessoas, seis delas em escola secundária, e choca a cidade de Tumbler Ridge, no centro-oeste do país. Professor brasileiro usou bancos de metal para montar barricada e proteger 15 alunos
Rodrigo Craveiro - Estado de Minas
Desde que a paz e a tranquilidade foram rompidas em Tumbler Ridge, localizada aos pés das Montanhas Rochosas do centro-oeste do Canadá, os 2 mil moradores tentam se unir para lidar com uma tragédia pouco comum no país: assassinatos em massa.
Visivelmente emocionado, o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, anunciou: “A nação está de luto”. “Nesta manhã, pais, avós, irmãs e irmãos em Tumbler Ridge acordarão sem alguém que eles amam. O Canadá está com vocês”, acrescentou, ao dirigir-se à população da pequena cidade.
O chefe de governo cancelou parte de sua agenda de quarta-feira (11/2), além de uma viagem à Europa, e ordenou que todas as bandeiras do país fossem hasteadas a meio-mastro pelos próximos sete dias, em sinal de respeito pelas vítimas de um dos maiores tiroteios da história do Canadá.
Às 14h20 de terça-feira (10/2) no horário local (18h20 em Brasília), a Polícia Real Montada Canadense recebeu um alerta sobre um atirador dentro da Escola Secundária de Tumbler Ridge, que abriga 175 estudantes. O atentado deixou seis mortos na escola (uma professora de 39 anos; três alunas, todas com 12; e dois alunos, de 12 e 13). Pelo menos 25 estudantes e funcionários ficaram feridos, dois deles em estado crítico. Outros dois corpos foram encontrados em uma casa próxima.
No fim da tarde desta quarta-feira, a polícia confirmou que o atirador é uma mulher transgênero de 18 anos identificada como Jesse van Rootselaar. Ela matou a mãe e o irmão, antes de atacar a escola.
“O que posso dizer é que a suspeita nasceu com o sexo masculino e, seis anos depois, começou a transição para o gênero feminino”, explicou o vice-chefe de polícia Dwayne McDonald. Mais cedo, as autoridades tinham alertado que a suspeita seria “uma mulher de cabelo castanho usando um vestido”. Depois de cometer o assassinato em massa, Jesse se matou.
Duas armas foram encontradas na escola — uma longa e uma pistola modificada. McDonald disse que os policiais estiveram na casa de Jesse em várias ocasiões, ao longo dos últimos anos, em ocorrências associadas a preocupações com a saúde mental da suspeita. Jesse foi detida algumas vezes para avaliação e acompanhamento no âmbito da Lei de Saúde Mental.

Natural de Monteiro Lobato (SP), o professor brasileiro Jarbas Noronha, 58 anos, lecionava mecânica automotiva para um grupo de 15 alunos no momento do atentado. “Comecei a aula às 13h40. Passei uns slides sobre como checar a bateria dos carros e, depois, praticamentos com o multímetro. Uns 40 minutos depois, quando fomos para a parte prática, que era troca de óleo, tudo comecou. Um de meus estudantes foi buscar o carro dele no estacionamento para trabalharmos nele. Quando ele regressou, mencionou que tinha escutado tiros”, contou ao Correio Braziliense. “A oficina de mecânica é a última, no final do corredor. Então, por conta do barulho da ventilação e do equipamento da oficina, era difícil ouvir algo. O alarme disparou e a diretora avisou um aluno que era um lockdown”, acrescentou.
Naquele momento, Noronha contou os alunos e tomou as providências para se protegerem. “Juntos, adicionamos algumas bancadas de metal contra a porta, como se fossem barricadas, para ganhar tempo e preparamos um plano de fuga, caso alguém tentasse invadir a oficina”, relatou. A ideia do brasileiro era correr através das portas de garagem da oficina, que dão acesso ao pátio, e utilizar o estacionamento como um ponto de encontro do grupo. O professor vive em Tumbler Ridge desde 2022 e trabalha na escola secundária há um ano e meio.
“Minha esposa falou ao telefone com nosso filho, Darian, o tempo todo, enquanto ele estava confinado com colegas. Ela descobriu que algo acontecia pois trabalha no hospital da cidade. Uma colega mencionou algo para ela. Logo depois, o alerta disparou em nossos telefones informando que havia um atirador ativo na escola”, contou à reportagem Shane Quist, pai de Darian Quist, 17 anos, estudante da Escola Secundária de Tumbler Ridge. “Darian não ouviu nem viu muita coisa, pois a sala de aula onde ele se trancou era do lado oposto da escola. Ele nem mesmo ficou sabendo o que era o alarme que disparou. Não creio que ele tenha processado de verdade o que ocorreu, durante um tempo, e não tenha acreditado que aquilo fosse real.”

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