

Com 69% de posse, La Roja controlou a decisão, neutralizou o principal articulador argentino e conquistou o bicampeonato
Por Victor Parrini — Enviado especial - Correio Braziliense
Nova Jersey — Lionel Messi jogou os 120 minutos da final porque há privilégios reservados apenas aos gênios. Qualquer outro teria deixado o campo antes. O camisa 10 hermano mal viu a bola. Refém da posse sufocante da Espanha, assistiu à decisão correr diante dos próprios olhos sem conseguir ditar o ritmo como tantas vezes fez na carreira e neste Mundial. Mérito de uma La Roja que transformou o maior jogador do século 21, dono de oito Bolas de Ouro, em um coadjuvante da decisão nos Estados Unidos.
Os números ajudam a explicar a atuação discreta. A Argentina finalizou apenas uma vez em toda a decisão, justamente com Messi, e sequer acertou o alvo. Antes do intervalo, passou os 45 minutos sem um único chute, algo inédito desde 1966. O camisa 10 também esteve abaixo do próprio padrão. Acertou 77% dos passes, encontrou o alvo em apenas uma de cinco bolas longas e percorreu 141 metros conduzindo a bola. Os três dribles que tentou deram certo, mas foram insuficientes para romper o controle exercido pela Espanha. Restou-lhe provocar quatro faltas e esperar por uma bola que quase nunca chegou.
A Espanha encontrou a forma mais eficiente de anular Lionel Messi: escondeu a bola. Enquanto a Argentina corria atrás dela, os 69% de posse transformaram o camisa 10 em um espectador da própria despedida em Copas. Acostumado a ser o ponto de partida de praticamente todas as ações ofensivas da Albiceleste, recebeu pouco, participou menos do que o habitual.
Não foi apenas Messi quem perdeu protagonismo. A Argentina também. Acostumada a acelerar o jogo a partir dos pés do capitão, viu as linhas se distanciarem enquanto a Espanha monopolizava a posse. Sem conseguir conectar defesa, meio-campo e ataque, a Albiceleste passou longos períodos apenas perseguindo a bola e terminou a decisão reduzida a um papel incomum: sobreviver.
Tudo indica que o capítulo de Lionel Messi nas Copas do Mundo chegou ao fim. Ao lado de Cristiano Ronaldo, tornou-se o único jogador a disputar seis edições do torneio. Despede-se com 34 partidas, 21 gols e 12 assistências.
Se entrou em campo pela última vez em uma Copa, Messi também fechou um ciclo reservado a pouquíssimos. O argentino igualou o brasileiro Cafu como os únicos jogadores de linha a disputar três finais de Mundial, em 2014, 2022 e 2026. Pelé conquistou três Copas, mas uma lesão o impediu de atuar na decisão de 1962, no Chile. O capitão do penta, porém, continua como o único presente em três finais consecutivas: 1994, 1998 e 2002.
A decisão também colocou Lionel Messi diante de outro pedaço da história. Aos 39 anos e 25 dias, tornou-se o jogador de linha mais velho a disputar uma final de Copa do Mundo, superando o sueco Gunnar Gren, vice-campeão com a Suécia em 1958, aos 37 anos e 241 dias. À frente dele, apenas o lendário goleiro italiano Dino Zoff, campeão mundial em 1982, quando tinha 40 anos e 133 dias.
Também perdeu um recorde histórico na reta final do torneio. Até a decisão, Messi dividia a artilharia das Copas com 21 gols, mas foi ultrapassado por Kylian Mbappé. O francês chegou a 22 ao marcar duas vezes na vitória por 6 x 4 sobre a Inglaterra, na disputa pelo terceiro lugar.
Curiosamente, foi o segundo vice de Lionel Messi no MetLife Stadium. Dez anos depois da derrota para o Chile na final da Copa América Centenário, o argentino voltou a deixar o estádio derrotado. Naquele 26 de junho de 2016, desperdiçou uma cobrança de pênalti, chorou e anunciou, ainda no calor da frustração, que não vestiria mais a camisa da seleção. “Acabou. Não é para mim”, desabafou.
Nem o título mundial de 2022 blindou Lionel Messi das lágrimas. Depois da cerimônia de premiação, o camisa 10 parou diante da torcida argentina e permaneceu imóvel, apenas observando a festa nas arquibancadas. Chorou. Sem a taça nas mãos, recebeu a maior homenagem da noite: o reconhecimento de quem parecia assistir, pela última vez, a um dos maiores jogadores da história.

© ClubeFM 2021 - Todos os direitos reservados