

O eclipse solar total atravessou parte do Hemisfério Norte e produziu um espetáculo de belas imagens para milhares de pessoas que esperavam pelo momento na Europa Continental. Na Espanha, não era visto há mais de meio século
Por Isabella Almeida – Correio Braziliense
O eclipse solar total que atravessou parte do Hemisfério Norte, ontem, transformou o céu em uma oportunidade de observação científica e um espetáculo para milhões de pessoas. O fenômeno, que não acontecia na Europa Continental desde 2006, começou na Rússia, passou pela Groenlândia e pelo Atlântico, chegou à Espanha e avançou até as Ilhas Baleares, no Mediterrâneo, onde desapareceu.
Na Espanha, onde um eclipse total não era visto há mais de um século, a multidão se animou. O fenômeno se estendeu por quase duas horas. Em outras áreas, como partes da Islândia, França, Canadá, África Ocidental e Estados Unidos, o fenômeno foi observado, mas não por completo.
Além do espetáculo, o eclipse foi uma oportunidade científica. Além de transmitir o evento, a Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço, dos Estados Unidos (Nasa), financiou pesquisas para estudar a coroa do Sol e compreender como a queda repentina da radiação solar afeta a atmosfera terrestre. Uma das principais iniciativas utilizou um avião WB-57, que acompanhou a sombra da Lua em grande altitude. A estratégia permitiu ampliar o tempo de observação e registrar alterações que desapareciam rapidamente para quem estivesse no solo.
O avião levou quatro câmeras capazes de produzir imagens de alta resolução em diferentes comprimentos de onda da luz visível e infravermelha. O sistema conseguiu registrar cerca de 20 imagens por segundo, permitindo aos pesquisadores acompanhar estruturas, fluxos de material e mudanças rápidas na atmosfera externa do Sol.
A observação da coroa foi considerada particularmente importante porque essa região, apesar de extremamente quente, é muito menos brilhante que a superfície solar. As condições proporcionadas pelo eclipse também permitiram ver a cromosfera, localizada entre as duas camadas citadas.
A Agência Espacial Europeia (ESA) também participou dos esforços científicos. Pesquisadores da instituição analisaram o eclipse para ampliar o conhecimento sobre os ventos solares e as tempestades provocadas pela atividade da estrela. A missão Solar Orbiter, lançada em 2020, já vinha coletando informações sobre a atmosfera e os ventos, enquanto a Proba-3 utilizava duas espaçonaves voando em formação para produzir eclipses artificiais e estudar a coroa.
O interesse científico estava relacionado também aos efeitos que a atividade solar pode provocar na Terra. Explosões de plasma e partículas carregadas podem atingir o campo magnético terrestre, interferir em satélites, representar riscos para astronautas e produzir auroras em regiões de altas latitudes.
A tradição científica dos eclipses é antiga. Em 1919, a observação de um fenômeno na ilha de Príncipe, na costa oeste da África, ajudou o astrônomo Arthur Eddington a confirmar uma previsão da teoria da relatividade de Albert Einstein.
De acordo com o astrônomo Danilo Rocha, membro da comissão organizadora da Olimpíada Brasileira de Astronomia, o eclipse total é um fenômeno que sempre desperta muita empolgação, principalmente porque proporciona uma experiência visual incrível e fácil de observar. “É muito fascinante estar tudo claro de dia e, do nada, escurecer. Isso acontece quando a Lua passa entre a Terra e o Sol e cobre o disco do Sol em alguns minutos. Essa coincidência também é especial porque, embora a Lua seja muito menor do que o Sol, ela está na distância certa da Terra para que os dois tenham, aproximadamente, o mesmo tamanho.”
Segundo Alexandre Cherman, astrônomo, diretor de astronomia do Planetário do Rio, eclipses, tanto do Sol quanto da Lua, acontecem todos os anos, mas dificilmente no mesmo lugar. “Como o Sol é muito maior e a Lua é bem pequena, quando a luz do Sol é tampada, a sombra do satélite vai ser projetada no espaço e bate na Terra, mas se afunilando. Então, quando ela chega aqui, é apenas um círculo, de uns 200, 300 quilômetros de diâmetro, é uma região muito limitada”, explica.
A mobilização popular foi especialmente intensa na Espanha. A procura por locais de observação, hospedagem, e óculos especiais para acompanhar o eclipse com segurança, aumentou nas semanas anteriores, enquanto os chamados “caçadores de eclipses” viajaram de diferentes países para acompanhar o fenômeno. A expectativa também movimentou cidades do interior espanhol, algumas delas fora dos principais circuitos turísticos.
Em Benavente, no noroeste do país, a procura foi suficiente para alterar a rotina da cidade. A região recebeu visitantes de diferentes partes do mundo e tornou-se um dos pontos escolhidos para acompanhar a totalidade. Estimativas do Ministério da Economia apontaram que o eclipse pode ter gerado um impacto líquido de quase US$ 400 milhões na economia do país, impulsionado pela chegada de turistas.
Segundo Hélio Jaques Rocha Pinto, presidente da Sociedade Brasileira de Astronomia, que viu o eclipse em sua totalidade, frequentemente fenômenos assim conseguem inspirar crianças, que acabam se interessando ainda mais pela ciência. “Eu estou justamente aqui na Espanha, em um congresso. A cidade é pequena, mas está tomada de turistas, de famílias. Os próprios moradores daqui estavam todos com uma grande expectativa, até porque o tempo estava totalmente aberto.”
Raro para cada pessoa
“Esse tipo de fenômeno não é tão raro. Acontece uma vez a cada ano, a cada um ano e meio. O problema do eclipse total do Sol é que ele só é visto numa parte bem pequenininha sobre o planeta Terra. Então, vê-lo exige que as pessoas se desloquem para esses locais. Outra coisa é que a fase de totalidade pode durar, no máximo, sete minutos e trinta segundos. Tem alguns que duram seis minutos, outros que são de apenas dois, é um evento de curto espaço de tempo. Além disso, temos que esperar que o tempo nesses locais esteja limpo. Todos esses fatores acabam tornando um eclipse total do Sol raro. Por exemplo, eu estou com 67 anos e nunca assisti a um assim, tem pessoas que vão passar a vida inteira e nunca vão ver.”
Josina Nascimento, astrônoma do Observatório Nacional, unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação
O asteroide 99942 Apophis, nome de uma grande serpente da mitologia egípcia que é a personificação do caos, passará a cerca de 32 mil quilômetros da Terra em 13 de abril de 2029. Com um comprimento que chega a 450 metros e diâmetro médio de 340 metros, tamanho comparável à Torre Eiffel, o corpo celeste é um dos maiores objetos a chegar perto do planeta.
Segundo a Nasa, não há risco do ‘deus do caos’ colidir com a Terra, ou com satélites em órbita pelo menos nos próximos cem anos. O asteroide Apophis deve oferecer uma rara oportunidade para cientistas analisarem a estrutura e o comportamento de um objeto desse tipo sob a influência da gravidade terrestre.
A agência americana (Nasa) enviará a missão Osiris-Apex, antes dedicada ao asteroide Bennu, para encontrar o Apophis após a maior aproximação. A Agência Espacial Europeia (ESA) também desenvolve a missão Ramses, que deverá acompanhar alterações na órbita, rotação e superfície do objeto rochoso, composto principalmente por silicatos, níquel e ferro.
28 de agosto de 2026 — Eclipse lunar parcial, visível no Brasil.
6 de fevereiro de 2027 — Eclipse solar anular, visível em partes do Brasil.
12 de agosto de 2045 — Eclipse solar total, um dos mais importantes do século para o Brasil, com totalidade em partes do Norte e Nordeste.

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