

Seleção do Golfo Pérsico enfrentou tensões antes da Copa do Mundo em razão da guerra com os Estados Unidos e sofreu com frustrações em jogos que valiam a chance da classificação
Arthur Ribeiro — Especial para o CorreioBraziliense*
No século VI, Ciro II, conhecido como o Grande, liderou uma revolta dos persas contra os medos (um povo da antiguidade) para iniciar o Império Persa, localizado onde hoje é o Irã. Mais de 1500 anos depois, a seleção iraniana repetiu os antepassados e enfrentou de frente o medo (desta vez a sensação) para participar da Copa do Mundo de 2026. Considerado pelo próprio treinador Amir Ghalenoei como o time “mais maltratado” da competição, eles se despedem do Mundial com lutas dentro e fora de campo, frustrações e feitos históricos.
O torneio nos Estados Unidos, Canadá e México começou com a marca de ser o primeiro a ter um país anfitrião em guerra com um dos participantes e o conflito pautou tensões antes da bola rolar. Autoridades do Irã ameaçaram não participar do campeonato, enquanto o presidente estadunidense afirmou que os iranianos seriam bem-vindos, mas não acreditava ser apropriado a presença deles “para sua própria vida e segurança”.
O cenário resultou em dificuldades da delegação iraniana para obter os vistos de entrada na terra do Tio Sam. Com mais de 15 baixas entre funcionários e dirigentes, incluindo o presidente da Federação Islâmica de Futebol do Irã (FFIRI), Mehdi Tah, a seleção optou por mudar a cidade que seria base para os treinamentos. De Tucson, no Arizona, foram para Tijuana, no noroeste mexicano.
Ainda antes do pontapé inicial, o time persa enfrentou novas restrições do governo de Donald Trump, que permitiu a entrada da equipe nos Estados Unidos apenas 24 horas antes das partidas contra Nova Zelândia e Bélgica, além de serem obrigados a deixar o país logo após as partidas. A restrição foi flexibilizada contra o Egito, com permissão para chegarem em Seattle dois dias antes do jogo.
A logística turbulenta impactou na preparação dos atletas, que não mediram palavras para criticar a organização do Mundial. “Essa é uma Copa do Mundo desastrosa. Como jogadores, não podemos disputar uma competição nessas condições. Não é certo e nem justo. Se a Fifa acha que é justo, problema deles, mas não é. O presidente Gianni Infantino veio ao nosso vestiário depois do primeiro jogo e disse que ia resolver os problemas, mas, na verdade, a Fifa não fez nada”, disse o capitão e destaque do time, Mehdi Taremi, após a partida com o Egito.
Com a bola em jogo, o Irã viveu todos os clichês de uma montanha-russa de emoções. Na estreia, um empate em 2×2 contra a Nova Zelândia, mesmo sendo favoritos. Um dos destaques da partida foi o apoio da torcida iraniana no SoFi Stadium, em Los Angeles, lar da maior comunidade iraniana longe de Teerã. Na rodada seguinte, segurou o 0x0 contra a Bélgica diante de uma grande atuação do goleiro Alireza Beiranvand.
Os altos e baixos continuaram na última partida do grupo G. O Egito saiu na frente com cinco minutos e o capitão Taremi perdeu um pênalti, mas logo depois o veterano Ramin Rezaeian, de 36 anos, igualou o placar. Nos acréscimos de um segundo tempo morno, onde os dois lados pareciam contentes com o empate, o zagueiro Shoja Khalilzadeh aproveitou a confusão na área e fez o gol que daria a classificação iraniana ao mata-mata, com comemoração sem camisa e de óculos escuros. No entanto, a bola na rede foi anulada por impedimento.
Apesar da frustração, a delegação deixou um recado de positividade no vestiário, agradecendo a recepção em Seattle e pedindo por Fair Play, inclusive citando todas as seleções que jogariam depois e poderiam impactar o futuro da equipe na competição.
“Viemos do Irã. De uma terra que, há milhares de anos, valoriza a honra acima da vitória. Para nós, o futebol não se resume apenas a competir por um resultado; é um teste de caráter. Pode-se marcar pontos da forma que se quiser, mas não se pode comprar o respeito. Pode-se passar a fase de grupos, mas só se pode manter a cabeça erguida perante o julgamento da história através do fair play. O Fair Play não é uma cláusula no regulamento do futebol; é a alma do futebol. Obrigado a todos os iranianos que trouxeram o seu coração, a sua voz e todo o seu ser para o campo em nome do Irã”, dizia a mensagem, ao lado das hashtags #168 e #Minab, que lembram as vítimas de um bombardeio a uma escola do país em fevereiro.
Com 3 pontos e saldo zerado, atrás de Bélgica e Egito, o Irã precisou torcer contra três resultados para passar entre os melhores terceiros. Secou a Croácia, que venceu Gana por 2×1, com gol nos dez minutos finais. Precisava de um revés da República Democrática do Congo, que ganhou do Uzbequistão de virada por 3×1. Na última esperança, comemorou o gol da Argélia aos 48 do segundo tempo e que lhes daria a classificação, mas viu a Áustria empatar aos 51 e selar o empate que eliminava os iranianos.
Logo após a eliminação, a seleção emitiu uma nota oficial agradecendo a cobertura da imprensa e a hospitalidade dos mexicanos, mas alfinetou os Estados Unidos pelo “tratamento injusto e antidesportivo”. Fora do mata-mata, mas invicto no Mundial, o Irã deixou o torneio como um personagem marcante, independente do futebol apresentado.
“Aos meus jogadores e à equipe, quero dizer que estou orgulhoso deles. O que estes jovens fizeram deveria ser registrado na história, porque o país anfitrião nos tratou de forma muito injusta. Apesar de todos esses problemas, conseguimos ter um bom desempenho e o mundo está orgulhoso dos iranianos. Apelo à Fifa que não deixem que anfitriões tratem equipes da mesma forma nas próximas Copas do Mundo”, acrescentou o técnico Ghalenoei.

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