

Uma das consequências é o déficit no desenvolvimento da leitura e do vocabulário ao longo do tempo. A permanência nas telas deve ser feita com equilíbrio
Por Isabella Almeida - Correio Braziliense
O uso regular das redes sociais no fim da infância e início da adolescência está relacionado a um pior desenvolvimento da leitura e do vocabulário ao longo do tempo, de acordo com uma pesquisa da Universidade da Geórgia, nos Estados Unidos. Segundo o estudo, publicado recentemente na revista Journal of Research on Adolescence, jovens que usam esses aplicativos com mais frequência diariamente tendem a ter dificuldades para reconhecer e pronunciar palavras.
A descoberta aconteceu logo após a Austrália se tornar o primeiro país a proibir o uso de redes sociais por crianças menores de 16 anos. À medida que outras nações consideram tomar medidas semelhantes e as plataformas de redes sociais implementam a verificação de idade para restringir a atividade online de adolescentes, o estudo levanta preocupações adicionais sobre o impacto do uso de aplicativos e de telas em geral no desenvolvimento infantil, afirmam os pesquisadores.
“O cérebro é como um músculo. Quanto mais você o usa, mais ele se modifica de acordo com a forma como você o utiliza”, disse Cory Carvalho, autor principal do estudo e doutor da Universidade da Geórgia, “Se você pensar nas Olimpíadas, os patinadores artísticos são realmente bons nisso porque passam oito horas por dia praticando. Seus corpos são programados para serem máquinas. Se as crianças passam mais de oito horas por dia usando as redes sociais, é a isso que seus cérebros vão se adaptar e para isso que vão ser programados”, explica o autor.
Para a pesquisa, os cientistas se basearam em dados de um outro estudo, ainda em andamento, sobre o desenvolvimento cognitivo do cérebro adolescente, que acompanha mais de 10 mil jovens adolescentes ao longo de seis anos. Ao analisar as informações, os cientistas descobriram que o uso frequente de redes sociais estava associado a dificuldades de leitura e vocabulário.
Os resultados revelaram que crianças que usavam redes sociais com mais frequência também apresentavam dificuldades no controle da atenção. De acordo com os cientistas, isso acontece porque a realização de múltiplas tarefas e as notificações frequentes prejudicam a atenção. E possível que adolescentes que têm problemas de concentração sejam mais propensos a acessar esses aplicativos, alertam os pesquisadores.
Para Priscilla Montes, educadora, palestrante e especialista em neuroeducação e desenvolvimento infantil, no Rio de Janeiro, do ponto de vista da neuroeducação, o estudo acende um alerta importante. “O uso frequente de redes sociais na infância e no início da adolescência pode treinar o cérebro para respostas rápidas e estímulos imediatos, mas também comprometer o desenvolvimento de habilidades mais complexas. Como o órgão ainda está em desenvolvimento, o excesso de telas tende a substituir experiências fundamentais, como a leitura profunda e interações mais significativas, o que pode gerar prejuízos cognitivos a longo prazo.”
No entanto, nem todos os impactos do uso das redes sociais foram negativos. Crianças que acessavam os aplicativos com mais frequência processavam informações mais rapidamente e tinham tempos de reação menores. Todavia, os pesquisadores alertaram que esses benefícios observados podem ser limitados a avaliações de velocidade de processamento baseadas em telas.
“Os efeitos negativos no vocabulário e na leitura são mais esperados, porque as redes sociais podem estar privando as crianças de oportunidades para desenvolver algumas dessas habilidades cognitivas de nível superior”, adverte Niyantri Ravindran, coautora do estudo e professora assistente na universidade.
Aline Brito, psicopedagoga do Colégio Sigma, em Brasília, explica que o uso frequente das redes sociais na infância e início da adolescência traz impactos importantes para o desenvolvimento, especialmente no que diz respeito à atenção, à linguagem e às habilidades básicas. “Ao dedicar grande parte do tempo a estímulos rápidos e fragmentados, as crianças deixam de vivenciar experiências fundamentais para a construção de competências cognitivas mais complexas, como a leitura aprofundada e a ampliação de vocabulário.”
Para Brito, do ponto de vista psicopedagógico, o equilíbrio é indispensável. “Mais do que proibir, é essencial mediar, estabelecer limites e garantir que as crianças tenham acesso a experiências ricas, como o brincar, a interação social presencial e o contato com a leitura, que são fundamentais para um desenvolvimento saudável e integral”, orienta a especialista.
Para ajudar a combater os efeitos negativos, os pesquisadores sugerem limitar o tempo de uso de telas, especialmente antes de dormir. Eles também recomendam esperar até que as crianças sejam mais velhas para comprar um smartphone. Caso os pais precisem manter contato com seus filhos, um “celular simples”, que não tenha acesso às redes sociais, também pode ser uma opção.

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