EUA acusam o Brasil de tolerância com PCC e CV
Relatório do Departamento de Estado aponta falhas na contenção do avanço das facções, o que teria tornado o país em "centro relevante para o fluxo global de cocaína". Governo do presidente Lula é cobrado a adotar "medidas agressivas"

Por Redação Clube FM - Brasília
- Atualizado
Por Armando Holanda e Fernanda Strickland
O governo dos Estados Unidos acusou o Brasil, ontem, de ter falhado no combate às facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV). É o que consta de documento elaborado pelo Departamento de Estado, assinado pelo presidente Donald Trump e entregue ao Congresso norte-americano.
No trecho dedicado ao Brasil, o documento afirma que o PCC e o CV — classificados como organizações terroristas estrangeiras pelas autoridades dos EUA — transformaram o país em um “centro relevante para o fluxo global de cocaína”. Segundo o relatório, “enquanto muitos governos no Hemisfério Ocidental estão tomando medidas corajosas para reduzir o fluxo de drogas e erradicar cartéis, o governo do Brasil falhou em confrontar” as duas facções.
O Departamento de Estado cobra do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a adoção de “medidas agressivas” de enfrentamento aos dois grupos criminosos antes que eles ampliem a atuação. O tom, porém, contrasta quando a pasta comandada pelo secretário Marco Rubio se refere a outros países latino-americanos “aliados” — casos de Argentina, Equador e El Salvador, ao passo que o Peru é citado pelo compromisso de trabalhar com Washington e outros parceiros no combate a organizações criminosas e na redução do fluxo de cocaína ao mercado norte-americano.
O relatório menciona trocas de governo na Venezuela, Bolívia e Colômbia — que “criaram oportunidades históricas para a cooperação dos Estados Unidos”. Apesar dos “avanços” nessas nações, o documento adverte que são necessárias novas medidas para combater o narcotráfico.
O governo brasileiro, por sua vez, rebateu o relatório. Em nota divulgada ontem à noite, desqualificou as “alegações de que existam falhas ou omissões no enfrentamento ao crime organizado transnacional”. Observou, ainda, que os EUA desconsideraram “os esforços do governo federal no enfrentamento ao crime organizado, como a Lei Antifacção, sancionada em março de 2026, que prevê penas mais severas para líderes de facções e cria mecanismos que asfixiam suas operações”.
Ainda de acordo com o governo brasileiro, o relatório do Departamento de Estado desconsidera “as dezenas de milhares de operações de combate ao crime por forças federais, com bilhões de reais de prejuízo aos criminosos, bem como as múltiplas ações implementadas em 2026 no âmbito do Programa Brasil contra o Crime Organizado, lançado em maio último, que sufoca economicamente as facções, fortalece o sistema prisional, qualifica a investigação de homicídios e enfrenta o tráfico de armas".
Ação contra o STF
A cobrança de um combate mais intenso do Brasil ao PCC e ao CV vem à tona no momento em que o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro volta a transitar por organismos do governo norte-americano. Ele se reuniu, ontem, em Washington, com representantes do Departamento de Estado. Segundo interlocutores do filho 03 do ex-presidente Jair Bolsonaro, o encontro teve como um dos temas centrais a situação do Supremo Tribunal Federal (STF).
Eduardo levou aos integrantes do governo Trump um “briefing” sobre o que se passa na Corte. O ex-deputado também defendeu nova rodada de sanções contra os ministros do Supremo.
A ofensiva havia sido anunciada por Eduardo na terça-feira, enquanto acompanhava a sessão do STF que discutiu a possibilidade de abertura de uma investigação sobre o ministro Alexandre de Moraes. Nas redes sociais, afirmou que estava reunindo registros das manifestações dos magistrados para apresentá-las em Washington.
A movimentação de Eduardo junto a autoridades norte-americanas ocorreu antes da reunião de ontem, e vinha sendo articulada há algum tempo. O ex-deputado afirmou que pretendia defender a retomada de medidas contra Moraes com base na Lei Magnitsky. O ministro chegou a ser alvo da legislação em 2025, mas a punição foi retirada após negociação entre os governos brasileiro e norte-americano.










