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Flávia Alessandra passa por metamorfose solar para emendar duas novelas

De vilã densa em "Êta mundo melhor!" a perua compulsiva em "Quem ama cuida", Flávia Alessandra equilibra o sucesso nos negócios e celebra mais de 30 décadas de carreira com maturidade e ainda sonhando, sempre com pés no chão

Flávia Alessandra passa por metamorfose solar para emendar duas novelas
Flávia Alessandra, atriz (foto: FELIPE CENSI)

Por Redação Clube FM - Brasília

- Atualizado

Flávia Alessandra atravessa os bastidores da televisão brasileira sem tempo para o vazio: mal havia se despedido da densidade cortante de Sandra, a vilã gélida e calculista de Êta mundo melhor!, de 2025, a atriz já se via diante do espelho, ainda com os fios loiros da antiga personagem, moldando os contornos de Fábia.

A virada de chave para a perua contemporânea de Quem ama cuida, atual sucesso do horário nobre da Globo, aconteceu em um piscar de olhos. Uma transição vertiginosa que, longe de exaurir a geminiana, funcionou como oxigênio.

"Foi quase como trocar completamente de frequência", confessa a atriz de 52 anos, deixando escapar o entusiasmo de quem reconhece no desafio o combustível de sua longevidade artística. "A Sandra foi uma personagem muito intensa, que exigiu bastante de mim física e emocionalmente. A Fábia me trouxe uma leveza, uma comicidade e uma energia muito diferentes", explica a intérprete de personagens marcantes que vão desde a ingênua Dorothy de A indomada (1997) a terrível vilã Cristina, de Alma gêmea (2005), passando por uma sequência de três Lívias em Meu bem querer (1998), Porto dos Milagres (2001) e O beijo do vampiro (2002), pela ousada dona de casa que se aventura no pole dance de Duas caras (2007) e até por uma robô, em Morde & Assopra (2011).

Essa mudança de sintonia alterou, inclusive, a rotina de seu próprio corpo. Se o rigor histórico de uma vilã de época exigia uma palidez quase intocável, a efervescência da atual personagem devolveu a Flávia o direito ao próprio bem-estar: "Eu não podia tomar sol durante Êta mundo melhor porque não condiz com a época a Sandra estar toda bronzeada. A Fábia pede essa cor. Então, voltar a tomar aquele solzinho na praia foi maravilhoso", comemora a filha ilustre de Arraial do Cabo, litoral do Rio de Janeiro.


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Flávia Alessandra, atriz(foto: FELIPE CENSI)

Arquitetura do exagero

Fábia não entra em cena discretamente. A esposa do decadente Ulisses (Alexandre Borges) se anuncia por meio de lábios volumosos, um figurino milimetricamente exagerado inspirado no clã Kardashian e um indefectível pirulito na boca. Cada detalhe foi desenhado em um processo minucioso de cocriação com a diretora Amora Mautner, a figurinista Flávia Costa e a equipe de caracterização. O doce, longe de ser um mero adereço, é a tradução física de uma psique inquieta. "Eu percebi que fazia sentido a personagem sempre ter alguma coisa na boca. É uma compulsão. Ela é ansiosa, não consegue ficar parada. Então, ela tem o pirulito, ou uma goma, ou a taça de champanhe. Ela está em um eterno estado de compulsão", justifica.

Essa opulência estética dialoga diretamente com as discussões contemporâneas sobre os limites da imagem. Flávia, que fora das telas transita com maestria no mundo dos negócios como sócia da rede de clínicas de estética Royal Face, utilizou sua bagagem corporativa como laboratório criativo. O ambiente empresarial deu a ela o repertório exato sobre as conversas de consultório e a relação complexa que a sociedade estabelece com o espelho. No entanto, ela alerta que a personagem opera na chave da hipérbole: "Existe um exagero muito proposital. A graça está justamente em levar algumas dessas situações para um lugar dramatúrgico".

O que o público começa a perceber, contudo, é que a futilidade aparente de Fábia é apenas a superfície de um oceano mais profundo. "Ela é realmente uma caixinha de Pandora", adianta a atriz, prometendo camadas mais sombrias, frustrações e contradições que devem emergir nos próximos capítulos. "É uma linha muito tênue. Cuidar de si é maravilhoso, faz parte da autoestima. O problema é quando esse cuidado deixa de ser uma escolha e passa a ser uma necessidade para você se sentir aceita", argumenta.


O valor do reencontro

O papel atual sela mais um capítulo de uma feliz e duradoura aliança criativa com os autores Walcyr Carrasco e Cláudia Souto, com quem Flávia já havia dividido sucessos históricos como Caras & Bocas (2009) e Morde & Assopra (2011). É uma relação pautada no respeito mútuo e na liberdade de criar. "Existe uma confiança construída ao longo dos anos. O Walcyr conhece meu trabalho e acredita no meu potencial. A Cláudia tem uma escrita muito especial e uma sensibilidade enorme para construir personagens femininas", elogia.

Enquanto brilha na ficção das nove, Flávia também conquista o topo das paradas digitais no comando do podcast Pé no sofa pod, um projeto dividido com a filha mais velha, Giulia Costa, de 26 anos — fruto do casamento de uma década com o ator e diretor Marcos Paulo (1951-2012). No estúdio, a barreira entre o público e o privado se desfaz em diálogos francos, em que a espontaneidade doméstica dita o tom. O retorno do público tem sido imediato. "Os episódios nos quais nos aprofundamos nessas conversas entre mãe e filha são os que mais trazem retorno, não só de acessos, mas principalmente de mensagens.
Eu aprendo muito com a Giulia. Ela tem uma visão de mundo diferente da minha e acho muito rico poder trocar com ela."

No campo afetivo, o ano de 2026 carrega um simbolismo especial: Flávia e o apresentador Otaviano Costa, 53, completam duas décadas de casamento. Em um meio onde os holofotes costumam desgastar os laços, a longevidade do casal — que também partilha projetos profissionais — baseia-se na simplicidade do cotidiano e no respeito à individualidade. "Acho que é a escolha diária. Não existe uma fórmula mágica. Existe vontade de estar junto, respeito, admiração e, principalmente, muito bom humor. Aprendemos que somos duas pessoas diferentes, com projetos individuais, e que isso não diminui a nossa parceria. Pelo contrário, fortalece", analisa a também mãe de Olívia, 16, fruto dessa união duradoura.

Essa mesma lucidez que rege sua vida pessoal é o norte de suas diretrizes profissionais. Em sua palestra "Sonhar com os pés no chão", a empresária e atriz costuma mentorar novos talentos sobre como transformar ideias em realidade palpável. Para quem busca trilhar um caminho sólido no entretenimento atual — um mercado pulverizado por streamings, redes sociais e inteligências artificiais —, o conselho de quem estreou na televisão em 1989 — revelada em um concurso no Domingão do Faustão juntamente com as colegas Adriana Esteves e Gabriela Duarte para atuar na novela Top model — é pragmático e encorajador.

"Eu diria para não esperar o momento perfeito para começar. Hoje, existem muito mais possibilidades, mas também uma concorrência enorme. Então, é importante estudar, preparar-se, entender o mercado e, principalmente, ter coragem de colocar suas ideias em prática. Sonhar é fundamental, mas transformar o sonho em projeto é o que faz a diferença", finaliza Flávia.

 


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