

Pesadelos, medo de barulhos e expectativa por indenização marcam a rotina de moradores do prédio atingido no Bairro Silveira
Por Fernanda Santiago* - Estado de Minas
Quase dois meses após a queda de um avião de pequeno porte em um prédio residencial no Bairro Silveira, na Região Nordeste de Belo Horizonte, o trauma continua presente na vida dos moradores. Pesadelos recorrentes, sensibilidade a sons, dificuldades para trabalhar e a expectativa por uma indenização fazem parte da rotina de quem sobreviveu à tragédia. Enquanto as obras de reconstrução do acidente, ocorrido dia 4 de maio, avançam, as investigações sobre suas causas ainda não foram concluídas.
A consultora de vendas Claudete Luzia Caldeira Ourivio Martins, de 67 anos, afirma que o impacto emocional permanece tão forte quanto nos primeiros dias. Moradora do edifício há cerca de 40 anos, ela estava na janela do apartamento quando viu a aeronave se aproximar.
“Eu vi o avião vindo na direção da minha janela. Achei que ele fosse bater em mim. Um segundo depois, ele atingiu o prédio”, relembra.
Segundo Claudete, o desespero foi imediato. Convencida de que haveria uma explosão por causa do combustível derramado, ela chegou a cogitar pular do terceiro andar. Ao tentar escapar pela porta, encontrou o corredor tomado por destroços da aeronave e vítimas do acidente.
“Foi uma cena de guerra. Tinha muita gritaria, muito choro. Eu achei que ia morrer queimada.”
Resgatada pelos bombeiros, ela afirma que ainda convive diariamente com as consequências psicológicas do episódio. O principal gatilho é o barulho.
“Uma buzina, uma furadeira, uma porta batendo, qualquer coisa faz meu coração disparar. Outro dia caiu um tapume da obra e eu achei que fosse outro avião.”
Ela também relata dificuldades para retomar a rotina profissional. Dona de uma loja virtual de cosméticos, ficou cerca de 15 dias sem trabalhar e ainda enfrenta problemas de concentração.
“Eu sento para trabalhar e não consigo pensar. Minha concentração foi muito afetada. Eu sei que preciso de terapia, mas tudo tem custo.”
As lembranças também surgem durante o sono. “Às vezes eu sonho com o avião caindo. Sei que a vida não vai ser mais a mesma.”
O policial militar Richard Dourado de Souza, de 37 anos, vive outro desafio dentro de casa. O filho dele, de 5 anos, que estava no apartamento quando o avião atingiu o prédio, desenvolveu medo intenso de sons altos.
“Qualquer moto, avião ou barulho mais forte ele tampa os ouvidos. Está tendo pesadelos e voltou a dormir com a gente.”
Segundo Richard, a criança já havia superado anteriormente uma sensibilidade a ruídos, mas o acidente agravou o problema. Atualmente, o menino voltou a fazer acompanhamento psicológico.
“Ele não chegou a ver as vítimas, mas viu toda a movimentação. E toda hora alguém comenta sobre o acidente. Isso acaba relembrando tudo.”
O próprio policial admite que também foi afetado emocionalmente. Ele participou do socorro às vítimas logo após a queda da aeronave e afirma que a experiência mudou sua forma de enxergar a vida.
“Quando passa um avião mais baixo, a gente olha para cima automaticamente. Antes eu nem percebia quantas aeronaves passavam por aqui.”
Além dos impactos emocionais, os moradores convivem com os transtornos causados pelas obras de reconstrução. O síndico Fausto Torres Magalhães Avelar, de 32 anos, afirma que os trabalhos estão aproximadamente na metade.
“A estrutura principal já foi recuperada. Agora estamos na fase de acabamentos e reconstrução dos apartamentos atingidos.”
Segundo ele, o seguro do condomínio está custeando as intervenções estruturais, mas ainda existem negociações em andamento para ressarcimento de danos materiais e extrapatrimoniais sofridos pelos moradores.

A estimativa inicial é de que os prejuízos materiais cheguem a cerca de R$ 500 mil, valor que pode aumentar à medida que novos danos sejam identificados durante as obras.
Enquanto isso, moradores e representantes do condomínio mantêm conversas com advogados ligados à família do proprietário da aeronave. A expectativa é de que haja um acordo para compensar não apenas os danos materiais, mas também os impactos emocionais provocados pela tragédia.
“A gente espera que seja reconhecido tudo o que foi vivido aqui. Não é normal um avião cair dentro do seu prédio”, afirma Richard.
As causas do acidente seguem indefinidas. Procurada pela reportagem, a Força Aérea Brasileira (FAB), por meio do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), não respondeu aos questionamentos.
Já a Polícia Civil de Minas Gerais informou que todas as testemunhas pertinentes foram ouvidas e que os materiais necessários foram recolhidos. Segundo a corporação, a conclusão dos laudos periciais será determinante para esclarecer as causas da queda. Até lá, novas informações não serão divulgadas para não comprometer o andamento das investigações.
Enquanto aguardam respostas oficiais, os moradores tentam reconstruir não apenas os apartamentos atingidos, mas também a sensação de segurança perdida naquele dia. Para muitos deles, a tragédia deixou marcas que dificilmente desaparecerão quando as obras terminarem.
O avião monomotor PT-EYT, com espaço para cinco passageiros, saiu de Teófilo Otoni na manhã de segunda-feira (4/5), com destino a São Paulo. A aeronave fez uma parada no aeroporto da Pampulha, em BH, para o desembarque de dois passageiros, e decolou novamente. Poucos minutos depois, às 12h16, ele colidiu contra um prédio de três andares na Rua Ilacir Pereira Lima, no Bairro Silveira, em frente a um supermercado EPA.
Além do piloto e do empresário Leonardo Berganholi Martins, dono do avião, morreu no acidente o médico veterinário Fernando Moreira Souto, de 35 anos. Ficaram feridos os passageiros Arthur Shaper Berganholi, de 25 anos, filho de Leonardo, e Hemerson Cleiton Almeida Souza, de 52, que trabalhava como gerente financeiro da empresa de revenda de veículos do empresário.
O gerente financeiro Hemerson Almeida Souto, ficou gravemente ferido, precisando ser entubado, mas sobreviveu. Assim como Arthur, que sofreu várias fraturas e precisou de uma cirurgia no pé.
Um buraco foi aberto na parede do prédio. O avião invadiu a escadaria, cozinha e área de serviço do apartamento do síndico, no terceiro andar. Paredes, móveis e eletrodomésticos foram destruídos.
Por instrução da Defesa Civil, todos os moradores do prédio de três andares precisaram deixá-lo por dois dias para averiguar qualquer dano na estrutura. Depois de constatar que o prédio era seguro, foram liberados para voltar a residir no local.
O advogado da família do empresário Leonardo Berganholi Martins, dono do avião, foi procurado mas não respondeu. O espaço permanece aberto.
*Estagiária sob supervisão da subeditora Juliana Lima

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