

País tropical entra nos Jogos Olímpicos de Inverno na Itália com delegação recorde, ciclo com resultados históricos, estrelas e chances reais de conquistar o primeiro pódio
Por Correio Braziliense
O Brasil nunca teve tantas chances nem esteve tão perto de quebrar o gelo e realizar o sonho da primeira medalha nos Jogos Olímpicos de Inverno. “O país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza” está pronto para entrar numa fria, no bom sentido, a partir de hoje, quando será decretada a abertura da 25ª edição do megaevento.
Quatorze atletas carregarão a bandeira brasileira em cinco modalidades — bobsled, esqui alpino, esqui cross-country, skeleton e snowboard. É a maior delegação do país na história da versão gelada da Olimpíada, criada em 1924 e com presença ininterrupta do Brasil desde 1992. O otimismo das Confederações de Desportos no Gelo (CBDG) e na Neve (CBDN) não é reflexo apenas da quantidade, mas também da qualidade.
O ciclo para Milão-Cortina é considerado o melhor dos brasileiros. Bons desempenhos estiveram alinhados com resultados históricos, impulsionados por talentos “importados”. Patrick Burgener, 31 anos, do snowboard halfpipe, nasceu na Suíça, mas a mãe, libanesa, refugiou-se no Rio de Janeiro por uma década antes de se mudar para os Alpes. Burgener escolheu honrar o país e acertou em cheio. Em janeiro, brindou o país com o bronze e a primeira medalha em uma Copa do Mundo da modalidade.
Burgener aterrissou na Itália com o status de top 10 do ranking do halfpipe e busca resultado além do 5º lugar na edição de PyeongChang-2018. Em Pequim-2022, foi 11º. “Doarei tudo que eu tenho. É uma oportunidade para demonstrar o snowboard e contribuir com mais do que antes, porque quero disputar por um país tão grande como o Brasil”, discursou em entrevista ao Correio.
No sábado, Burgener assustou a delegação ao sofrer uma queda durante treino. Ele tentou executar manobra de elevado grau de complexidade, caiu e foi encaminhado ao hospital. Felizmente, não sofreu lesão, recebeu alta e faz os últimos ajustes para a estreia na quarta-feira.
Lucas Pinheiro Braathen é o principal atleta da delegação e com maiores chances de pódio e de superar o melhor resultado do país, estabelecido por Isabel Clark com o 9º lugar no snowboard cross em Turim-2006. Aos 25 anos, também disputou pela primeira vez uma Olimpíada sob a bandeira brasileira. Natural da Noruega, é filho de brasileira e mergulhou de cabeça na transição. O “Haaland” do esqui alpino turbinou o ciclo verde-amarelo com 10 pódios etapas da Copa do Mundo da modalidade, incluindo o ouro na disciplina slalom em Levi, na Finlândia, em novembro de 2025.
O fenômeno do esqui alpino enxerga a cultura brasileira como aliada no esporte. A playlist tem de tudo, inclusive, Jorge Ben Jor e João Gilberto. Se puder unir o som à alegria do churrasco, tudo fica ainda melhor para o torcedor que adora ir ao Morumbi, quando possível, para jogos do São Paulo. “É uma coisa muito especial. Imagina, você está competindo num esporte de neve e na Copa de Mundo. Você está competindo nas montanhas, na Áustria, nos Estados Unidos, na Suécia, em todos esses lugares e vê a lista com todos os nomes de quem está competindo. Aí tem alguém com a bandeira brasileira. Só um. Talvez, eu possa colaborar com uma mudança, para uma nova geração desse esporte e um novo esporte para o Brasil”, ao Olympics.com.
Gerente da Confederação Brasileira de Desportos na Neve, Thatiana Freire comenta sobre o fenômeno da “importação” de atletas. “Temos uma realidade de esportes sem prática garantida ou facilitada. É importante para ampliarmos nosso número de atletas, com mais chances de resultados, dando maior visibilidade para as modalidades de neve e impactando bastante toda a comunidade brasileira”, analisou. “O efeito do Lucas (Pinheiro) é incontestável, não só pelos resultados, mas por transmissão das etapas da Copa do Mundo. Temos um alcance que antes não tínhamos, possibilidade de resultado maior e impacto”, completa.
Mas nem só de Lucas Pinheiro e Pat Burgener vive a delegação brasileira de inverno. No gelo, o destaque é da gaúcha Nicole Silveira, radicada no Canadá e dona da inédita quarta colocação no Mundial de Skeleton de Lake Placid (EUA), em março de 2025, além de três pódios em etapas da Copa do Mundo, com os terceiros lugares em PyeongChang (Coreia do Sul), na temporada 2024/2025, e St. Moritz (Suíça), em 2024/2025 e 2025/2026.
Os Jogos de Inverno 2026 também desafiam o departamento de logística do Comitê Olímpico do Brasil. Os brasileiros terão compromissos em Bormio, Livigno, Tesero e Cortina D’Ampezzo, separadas por 400km. Todo equipamento levado para a Itália pesa 3 toneladas, considerado suficiente para atender as necessidades da delegação composta por 60 integrantes.
Mas nem tudo é festa para os 3.500 atletas dos 93 países envolvidos. A crise climática afeta os Jogos. O Comitê Olímpico Internacional cogita antecipar para janeiro as próximas edições, o que não acontece desde 1962, devido à falta de neve.
Em Milão-Cortina, 2,5 milhões de metro cúbicos de neve serão produzidos artificialmente por máquinas, o equivalente a 80%. A artimanha terá o custo ambiental de 946 milhões de litros de água, suficientes para encher 380 piscinas olímpicas. Estudo do Comitê Olímpico Internacional (COI) projeta que até 2040 apenas 10 países terão condições de receber os Jogos, considerando disponibilidade de neve e de água para produção artificial.
Se Paris-2024 inovou com a primeira abertura fora de um estádio percorrendo pontos icônicos da Cidade Luz, Milão-Cortina ficará marcada como a pioneira com cerimônias simultâneas. A maior festa será no San Siro terá, a partir das 16h (de Brasília), com shows de Mariah Carey, Laura Pausini e Andrea Bocelli. Haverá versões menores da cerimônia, como na Piazza Dibona, em Cortina d’Ampezzo, em Livigno e Predazzo.
Maior medalhista da história do Brasil em Jogos Olímpicos, com dois ouros, três pratas e um bronze, a ginasta Rebeca Andrade carregará a bandeira olímpica na cerimônia no San Siro. Nicole Silveira será a porta-bandeira em Cortinba. Lucas Pinheiro desfilará em Milão. Pat Burgener e Augustinho Teixeira devem representar o país em Livigno, e Alice Padilha, em Predazzo.
O Brasil entra em ação a partir de terça-feira nas competições, com Bruna Moura e Duda Ribera no esqui cross-country feminino, às 5h15. Às 5h55, tem Manex Silva no masculino. Na quarta, é dia de Pat Burgener e Augustinho Teixeira no snowboard halfpipe, a partir de 15h30.

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