

Atriz desde os 4 anos e com personagens que fazem parte do imaginário coletivo, Isabela Garcia retorna às novelas como Elisa em “Quem ama cuida” e celebra mais de cinco décadas de uma história que se confunde com a da televisão brasileira
Por Patrick Selvatti - Correio Braziliense
Poucas atrizes brasileiras podem dizer que cresceram diante dos olhos de várias gerações de telespectadores. Menos ainda podem afirmar que sua trajetória acompanha, capítulo a capítulo, a própria evolução da televisão nacional.
Com 59 anos completados no último dia 11 de junho e mais de cinco décadas de carreira, Isabela Garcia ocupa esse lugar raro. A menina que estreou aos quatro anos de idade na TV Globo, em 1971, transformou-se em uma das artistas mais respeitadas de sua geração e, agora, vive um momento especial: o retorno às novelas em Quem ama cuida, após sete anos afastada da tevê aberta.

Na trama escrita por Walcyr Carrasco e Claudia Souto, a veterana interpreta Elisa, mãe da protagonista vivida por Letícia Colin e filha do personagem de Tony Ramos. O trabalho representa não apenas um novo desafio artístico, mas também um reencontro afetivo com colegas de longa data. “Está sendo muito lindo o encontro com a Letícia, o reencontro com Tony, (a diretora) Amora Mautner e tantos colegas. Faz com que o dia de trabalho seja sempre um dia de celebração”, afirma ela, cujo último trabalho tinha sido em O sétimo guardião, de 2018.
Antes disso, Isabela havia chamado a atenção do público em Dona Beja, produção que marcou seu reencontro com o audiovisual em uma obra de forte apuro estético. Para Isabela, a experiência foi intensa e emocional. “Interpretar a Genoveva, uma mulher com uma história tão dolorida. São cenas muito fortes, e poder fazê-las com o meu parceiro Tuca Andrada fez toda diferença”, conta a atriz, sobre a novela curta da HBO Max que, embora tenha sido gravada entre 2023 e 2025, foi disponibilizada no início deste ano e está sendo exibida pela Band.
A declaração ajuda a explicar por que Isabela atravessou tantas décadas em evidência. Desde os tempos em que era chamada de “Shirley Temple brasileira”, passou por personagens inesquecíveis como a pequena órfã Maria Helena, em Água viva (1980); a espevitada Rosemary, em Anos dourados (1986); a marginalizada Ana, em Bebê a bordo (1988); a angelical Isabela, de O sexo dos anjos (1989); a deslumbrada Yoyô, em Labirinto (1988); e as populares Eliete, de Celebridade (2003), e Dinorá, de Paraíso tropical (2007).
A atriz construiu uma carreira baseada não apenas no talento, mas também em uma postura admirada nos bastidores. Ao olhar para a criança que iniciou a carreira nos anos 1970, ela identifica valores que permanecem intactos: “O que faço questão de preservar sempre é o respeito por todos os profissionais que estão no mesmo trabalho. E daquela menina, acho que não perder a doçura”.
Essa mesma naturalidade aparece quando fala sobre o amadurecimento artístico. Hoje avó de dois netos (Luiza e Izzy) e referência para novas gerações de atores, Isabela vê a passagem do tempo como uma extensão orgânica da própria vida. “Muitos fãs lembram daquela jovem de Anos dourados ou de Bebê a bordo, mas, para mim, é tudo muito natural. É a minha vida, o caminho que eu tracei”, defende ela, que é mãe do músico João Pedro Bonfá, de 38 anos, fruto do relacionamento com o ex-baterista do Legião Urbana, Marcelo Bonfá; da artista plástica Gabriella Garcia, 32, com o fotógrafo André Wanderley; e dos gêmeos, que também são músicos, Francisco e Bernardo Thiré, 20, com o ator Carlos Thiré.
A maturidade também se reflete na relação com colegas históricos. Contracenar novamente com Tony Ramos, interpretando sua filha, traz uma sensação de continuidade em uma indústria que mudou profundamente desde seus primeiros trabalhos. “É perfeito porque nós continuamos os mesmos de sempre, o que nos dá apoio e segurança. O que mudou tecnologicamente, ou até na empresa, no mundo, nas relações, mudou também nas nossas vidas”, reflete a atriz que, quando criança, foi filha do veterano em Pai herói (1979) e, já adulta, em 1988, fizeram um par romântico inesquecível em Bebê a bordo.
Nos bastidores, Isabela encontrou ainda outra vocação. Seguindo os passos da irmã, Rosana Garcia (a eterna Narizinho de O Sitio do Picapau Amarelo), tornou-se uma respeitada preparadora de elenco infantojuvenil. Sua experiência como atriz mirim transformou-se em ferramenta para orientar crianças, adolescentes e suas famílias em um ambiente profissional cada vez mais complexo. O trabalho, segundo ela, proporciona uma satisfação comparável à atuação.
Um de seus trabalhos de maior destaque nessa função foi a preparação de todo o elenco infantil de Luz, a primeira série infantojuvenil brasileira da Netflix. O trabalho marcou uma dobradinha com o amigo de uma vida inteira Erick Andrade, produtor artístico de Dona Beja — as duas produções realizadas pela Floresta para o streaming.
Mesmo depois de tantos sucessos, a veterana garante que a emoção diante de um novo personagem permanece exatamente a mesma. “O frio na barriga sempre existe. Quando não estiver, é porque acabou. Interpretar um personagem exige um certo frescor nas palavras que ele diz, na sua maneira de agir. Para trazer isso, você tem que estar sempre começando”, conclui.
Talvez seja justamente esse sentimento de recomeço permanente que explique a longevidade de Isabela Garcia. Em uma carreira iniciada ainda na infância, marcada por sucessos, transformações e reinvenções, ela continua encarando cada novo trabalho com a curiosidade da menina que um dia entrou pela primeira vez em um estúdio de televisão. E, mais de 50 anos depois, segue escrevendo capítulos importantes de uma história que também pertence à memória afetiva do Brasil.




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