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Conheça a história da primeira mulher indicada ao cargo de General do Exército Brasileiro

Brasil
Cidade
Publicado em 13 de março de 2026
Conheça a história da primeira mulher indicada ao cargo de General do Exército Brasileiro
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A coronel médica Cláudia Lima Gusmão Cacho será a primeira mulher a compor o quadro de generais. A promoção será publicada no Diário Oficial da União em 31 de março, com nomeação do presidente Lula

Por Correio Braziliense

Pela primeira vez em sua história, o Exército Brasileiro indicou uma mulher ao posto de general de Brigada. “Tenho consciência da responsabilidade, um reconhecimento pelo trabalho que foi realizado ao longo de todos esses anos desde o meu ingresso nas Forças Armadas”, comenta a Coronel-médica Cláudia Lima Gusmão Cacho, 57 anos, em entrevista exclusiva ao Correio. Ao longo de três décadas de carreira, a militar construiu uma trajetória de destaque na área de saúde da Força e aguarda a nomeação pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que deve ocorrer em 31 de março.

Formada em medicina pela Universidade de Pernambuco (UPE), Cláudia começou o curso ainda aos 16 anos. Especializou-se em pediatria e iniciou a vida militar em 1996, período em que a presença feminina nas Forças Armadas ainda engatinhava. À época, entrou como oficial temporária no 42º Batalhão de Infantaria Motorizada, em Goiânia. Dois anos depois, em 1998, ingressou na Escola de Saúde do Exército (EsSex) como oficial de carreira, após aprovação no Curso de Formação de Oficiais Médicos, dando início à sua trajetória vitoriosa na corporação. 

A coronel comentou o episódio histórico e falou sobre o início da carreira no Exército e na medicina. “Isso traz uma visibilidade maior para nós mulheres do Exército. Então, está sendo uma boa experiência, bem interessante.” 

O pioneiristmo não é apenas do generalato. Com a nova função, ela assume como a primeira diretora do Hospital Militar de Área de Brasília (Hmab), unidade onde  ocupava o cargo de subdiretora. “Assim como em Natal (RN), e em Campo Grande (MS), acabei sendo a primeira diretora dessas duas organizações”, responde com naturalidade e esperança de quem tem visto mais mulheres em cargos de chefia nos últimos anos. 

“As Forças Armadas vêm se adaptando e aumentando essa força feminina, e a tendência é aumentar”, pontua. “As mulheres vêm entrando e desenvolvendo as atividades com competência, temos mulheres paraquedistas, guerreiras de céu, pilotos de helicóptero, mulheres em cargos de direção, tudo isso é gradual e está acontecendo naturalmente”.  

Trajetória 

Casada com o general de Divisão Jorge Augusto Ribeiro Cacho, a coronel é mãe de duas filhas: Maria Gabriela, 32, e Ana Beatriz, 20, que seguiu os passos da mãe e está no 2º semestre de medicina. O apreço pela carreira militar surgiu de forma espontânea, após abraçar a oportunidade de servir como oficial temporário, em 1996. Ela também menciona sua personalidade disciplinada e organizada como características que influenciaram sua escolha. “Quando entrei no Exército, uma das especialidades que precisavam era a pediatria. Eu também já era casada com um militar e me considerava uma pessoa disciplinada. Então, foi fácil me adaptar”, conta. 

O gosto pela medicina começou ainda na infância, enquanto acompanhava os pais no comércio da família. “Meus pais eram donos de uma farmácia e eu gostava de ler as receitas das medicações. Foi isso que me levou à medicina”, explica. 

Ingressou na Faculdade de Medicina ainda adolescente, aos 16 anos, mas com a certeza de que essa seria a sua vocação. A pediatria foi a tão sonhada residência e a porta de entrada para o Exército que, na época, apresentava demanda por pediatras na instituição. A necessidade desses cargos ocorre porque os hospitais militares atendem não só aos servidores, mas também aos dependentes, incluindo crianças.  

Além de plantões e consultórios, ela exerceu atividades administrativas de destaque no campo da saúde. Em quase 30 anos de carreira, dirigiu o Hospital de Guarnição de Natal e o Hospital Militar de Área de Campo Grande, além de ocupar o posto de subdiretora do Hospital Central do Exército, no Rio de Janeiro. Chefiou a Divisão de Perícias Médicas da Inspetoria de Saúde do Comando Militar do Nordeste e atuou como adjunta da Inspetoria de Saúde do Comando da 9ª Região Militar. 

Na sua jornada, ela não deixou de lado a formação intelectual. Concluiu o Curso de Aperfeiçoamento na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO), em 2007, e o Curso de Comando e Estado-Maior de Serviços na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), em 2013. Possui pós-graduação em Administração Hospitalar e MBA em Gestão Estratégica de Saúde pela Fundação Getulio Vargas (FGV). 

Tamanho esforço e dedicação renderam-lhe condecorações relevantes, como a Medalha Militar de Prata, a Medalha do Pacificador, a Medalha Marechal Hermes de Bronze com uma Coroa, a Medalha Marechal Osório — O Legendário, a Ordem do Mérito Militar no grau de oficial e o Distintivo de Comando Dourado. 

Papel essencial

Na manga da farda da coronel, bordado com o nome “selva” chama a atenção e traz marcas de uma experiência que moldou a atuação da médica. O distintivo denota a formação e atuação de Cacho junto a comunidades na Amazônia brasileira. 

A atuação das equipes de saúde das Forças Armadas é estratégica para regiões amazônicas de difícil acesso, entre elas municípios que dependem integralmente dos serviços de saúde fornecidos pelos militares. “Essa é uma ação muito importante que o Exército faz, de levar esse apoio de saúde a essas populações mais distantes que têm menos acesso às grandes cidades”, conta. “Então, vai médico, dentista, farmacêutico”.  

Sem acesso por vias terrestres, essas ações utilizam-se de embarcações para montar hospitais de campanha e, até, de aeronaves da Força Aérea Brasileira (FAB). Para a coronel-médica, a experiência é um dos maiores exemplos da importância do papel do Exército para o país.  

“Quando você está fazendo uma ação daquela, você está servindo ao teu país, àquela população necessitada, e isso é muito gratificante para a gente. Sempre me considerei feliz por poder participar e ajudar de alguma forma”, comenta.  

Múltiplas esferas  

Médica, militar, gestora, mãe, esposa e filha. Em quase três décadas, o maior desafio da coronel é centrado em encontrar o equilíbrio entre tantas esferas que constituem uma só mulher. A necessidade de adaptação é requisito obrigatório na vida de um militar. Com mudanças frequentes de cidades e postos, reinventar-se é quase rotina, mas nada que a profissional não consiga tirar de letra.  

“No meu caso, eu e o meu esposo somos militares, mas nem todos os casos são assim. Tem parte de nossos filhos também, que deixam os amigos, deixam escolas, mudam de escolas”, relata. “É difícil, tem que ter paciência, mas conseguimos”.  

Nada disso seria possível, destaca a militar, sem o apoio da família. “É uma família muito unida, apesar delas [as filhas] não estarem mais morando conosco, mas a gente sempre conversou bastante e elas entendem, ficaram superfelizes com a indicação para general”, relata. O dia oficial da nomeação promete ser de festa, com a presença das filhas e da mãe, além de familiares que se programam para estar em Brasília na data e aqueles que, mesmo de longe, estão sempre perto.  

Como ocorre a promoção  

A disputa pelo generalato ocorre de acordo com a turma de ingresso, no caso da nova general, os grupos que entraram em 1997 e 1998. Ao longo da trajetória na carreira, os oficiais passam por avaliações frequentes, sobretudo aqueles que ocupam algum cargo de comando. Além dela, outros nove coronéis médicos, incluindo homens e mulheres, estiveram elegíveis à votação. 

Após esse filtro, uma votação é realizada pelo Alto Comando. São três reuniões durante o ano para decidir os indicados ao generalato de acordo com o número de postos disponíveis. Além do desempenho individual, cada patente exige um tempo específico de trabalho para ter direito à promoção. No caso de Cláudia, ela pertence à turma que entrou em 1998, o que contabiliza 28 anos de serviço. 

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