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De ‘aluno’ a rival na Copa: como Brasil ajudou Japão a dar um salto no futebol

Brasil
COPA 2026
Publicado em 29 de junho de 2026
De ‘aluno’ a rival na Copa: como Brasil ajudou Japão a dar um salto no futebol
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A influência de jogadores e treinadores sul-americanos ajudou a profissionalizar o futebol japonês e moldou uma relação que, décadas depois, ganha um novo capítulo no confronto entre as duas seleções na Copa do Mundo



Priscila Carvalho - De Osaka (Japão) para a BBC News Brasil

A seleção brasileira entra em campo na segunda-feira (29/06) para enfrentar o Japão na Copa do Mundo em um duelo que carrega uma relação construída ao longo de décadas. Antes de se consolidar como uma das principais forças do futebol asiático, o Japão teve no Brasil uma referência dentro e fora de campo, com influência de jogadores, treinadores e dirigentes brasileiros.

Hoje, o cenário é outro. O Japão chega como uma seleção capaz de competir em alto nível, segundo os especialistas ouvidos pela BBC Brasil.

Para Zico, um dos brasileiros que mais contribuiu para a evolução do futebol no Japão, o confronto exige atenção.

“É um jogo em que os dois times propõem jogo. O Brasil precisa ter cuidado com a velocidade e a movimentação dos caras, porque eles não param”, afirmou Zico a um podcast no sábado.

“A relação do futebol brasileiro com o japonês é como a de professor e aluno, mestre e discípulo”, resume o jornalista esportivo Tiago Bontempo, autor do livro Samurais Azuis: a História do Futebol no Japão. Para ele, a Copa do Mundo de 1970, a primeira transmitida pela televisão japonesa, marcou o início da aproximação de uma geração de jogadores com o futebol brasileiro.

Na década seguinte, o Yomiuri, atual “Tokyo Verdy”, ficou conhecido como o “time dos brasileiros” por ter como principais nomes Jorge Yonashiro e Ruy Ramos, responsáveis por introduzir um estilo de jogo baseado na troca de passes e na técnica.

Seleção japonesa após gol contra a Suécia em junho de 2026, na Copa do Mundo
Japão teve bom desempenho na primeira fase da Copa e vai enfrentar o Brasil na segunda-feira

A criação da J.League (a Liga de Futebol Profissional do Japão), na década de 1990, ampliou essa influência. Após a conquista do tetracampeonato mundial pelo Brasil, em 1994, clubes japoneses passaram a contratar jogadores brasileiros que integravam ou já haviam defendido a seleção brasileira, como Dunga, César Sampaio, Zinho e Jorginho.

“Até hoje a maioria dos jogadores estrangeiros no Japão são brasileiros”, afirma Bontempo.

Influência brasileira

Muito antes de nomes como Zico, Toninho Cerezo e outros brasileiros ajudarem a impulsionar o futebol japonês, outro jogador abriu esse caminho. O primeiro brasileiro a atuar no país foi Nelson Yoshimura, ainda na década de 1960. Descendente de japoneses, ele fez sucesso a ponto de se naturalizar e defender a seleção japonesa.

“Por causa dele, os outros times japoneses também começaram a contratar brasileiros”, afirma Bontempo.

Na época, porém, o futebol no Japão ainda era amador. As principais equipes pertenciam a grandes empresas e eram formadas por funcionários das fábricas, que conciliavam o trabalho com os treinamentos e as partidas. Clubes ligados a empresas como Nissan, Yamaha, Mitsubishi, Hitachi e Mazda dominavam as competições, enquanto o beisebol seguia como o esporte mais popular do país.

Segundo o comentarista da ESPN Ubiratan Leal, esse cenário começou a mudar no fim dos anos 1980, quando o futebol passou a atrair mais público e investimentos. As empresas ampliaram os aportes nos clubes e passaram a contratar jogadores de maior destaque.

“Um dos primeiros nomes de peso foi o zagueiro Oscar, titular da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1982, que se transferiu para o Nissan ainda antes da profissionalização da modalidade”, diz.

Nos anos seguintes, chegaram primeiro jogadores nikkeis (descendentes de japoneses) e, depois, brasileiros sem ascendência japonesa, como Ruy Ramos. Naturalizado japonês, ele se tornou um dos principais atletas do país nos anos 1980 e, ao lado de Kazuyoshi Miura, o Kazu, simbolizou a transição do futebol amador para o profissional.

Anos da J.League

A criação da J.League marcou a maior mudança da história do futebol japonês, segundo os especialistas ouvidos pela reportagem. Até então, o esporte era disputado por equipes ligadas em um modelo semiprofissional. Com a nova liga, o país passou a investir na formação de clubes, torcidas e atletas, além de transformar o futebol em um produto voltado ao público.

Fundada oficialmente em 1º de novembro de 1991, a J.League iniciou sua primeira temporada em 15 de maio de 1993, com a partida entre Verdy Kawasaki e Yokohama Marinos, no Estádio Nacional de Tóquio.

Jogo da J. League em 1993
Criação da J.League nos anos 1990 foi ponto de virada do futebol japonês

A nova liga representou uma mudança de modelo.

“Foi o ponto de partida para a popularização do esporte e o fortalecimento de uma cultura futebolística de verdade. A identidade local também foi reforçada quando os times deixaram de ser ligados a empresas e passaram a ter o nome de cidades”, afirma Fernando Rudnick, especialista em comunicação esportiva e professor da Pós-Graduação em Jornalismo Esportivo da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).

Além da reorganização do futebol, a liga apostou em uma estratégia para atrair público. Clubes passaram a contratar jogadores de destaque internacional, enquanto a federação investiu na divulgação do campeonato, na venda de produtos oficiais e na construção da identidade das equipes.

Segundo Leal, o futebol ganhou espaço entre os japoneses, superou o sumô em popularidade e passou a ocupar o posto de segundo esporte mais acompanhado do país, atrás apenas do beisebol. Atualmente, a J.League tem média de público de cerca de 20 mil pessoas por jogo e muitos torcedores fanáticos.

O legado de Zico no país

Entre os jogadores contratados para a primeira edição da J.League, Zico desembarcou no clube que parecia ter menos chances de sucesso. O Sumitomo, equipe que daria origem ao Kashima Antlers, era o único participante vindo da segunda divisão amadora e representava uma pequena cidade do interior do Japão. Mais do que reforçar o elenco, o ex-camisa 10 da seleção brasileira ajudou a estruturar o clube que, anos depois, se tornaria o maior campeão da liga.

“O mérito de Zico foi pegar um time completamente amador nessa circunstância e transformar no que hoje é o maior campeão do Japão”, afirma Bontempo. Segundo ele, o brasileiro participou da organização da rotina do clube, orientando desde a estrutura do vestiário e os métodos de treinamento até a profissionalização do departamento de futebol.

“O próprio Zico disse que a única coisa que ele não fez no clube foi ser presidente”, complementa.

Na partida de abertura da J.League, em 1993, Zico marcou três gols na vitória sobre o Nagoya Grampus, resultado que ajudou a impulsionar sua popularidade e a da nova liga. Após encerrar a carreira, em 1994, permaneceu no Kashima Antlers como diretor técnico. O clube conquistou seu primeiro título japonês em 1996 e, desde então, tornou-se uma das maiores referências da competição.

“O Zico foi para o Japão mais ou menos o que Charles Miller foi para o Brasil”, compara Celso Dario Unzelte, comentarista da ESPN, mestre em Comunicação pela Faculdade Cásper Líbero e professor da mesma instituição.

Zico batendo falta pelo Kashima Antlers
Zico ensinou aspectos do futebol que os japoneses buscavam desenvolver, como improviso, “malícia e ginga”

Segundo ele, além do desempenho como jogador, o brasileiro ensinou aspectos do futebol que os japoneses buscavam desenvolver, como improviso, “malícia e ginga”. Para Unzelte, Zico é tratado como uma das figuras fundadoras do futebol moderno japonês, tanto pela influência dentro de campo quanto pela contribuição para a estruturação do Kashima Antlers.

Essa identificação também ajuda a explicar a forma como Zico é visto no Japão. Para João Weiner, diretor do documentário Zico, O Samurai de Quintino, lançado no fim de abril deste ano, o respeito dos japoneses está ligado não apenas ao jogador, mas também à postura do ex-atleta.

“A primeira frase do documentário é: ‘Estou há 60 anos no futebol. Nunca perdi um ônibus, nunca perdi um voo’. Isso mostra o tamanho do comprometimento dele com o esporte e ajuda a entender por que o japonês se identificou tanto com o Zico”, afirma.

Segundo Weiner, essa admiração permanece décadas depois. “No Japão, não é só idolatria. É uma reverência. Não é à toa que eles o chamam de ‘kamisama’ (termo em japonês para ‘Deus’ ou ‘divindade’, usado ali como o Deus do Futebol).”

João Weiner dirigiu documentário O Samurai de Quintino, sobre Zico no Japão
João Weiner dirigiu documentário O Samurai de Quintino, sobre Zico no Japão

Os brasileiros que marcaram o futebol japonês

A influência brasileira no futebol japonês não terminou com Zico. Ao longo das décadas seguintes, jogadores e treinadores continuaram a desembarcar no país e ajudaram a consolidar o desenvolvimento da modalidade.

“O Japão começou a buscar muito no Brasil jogadores e treinadores para aprender a jogar futebol. Eles queriam ter uma referência mais concreta do que era um jogador de alto nível e até onde precisavam evoluir”, afirma Leal.

A ligação entre Brasil e Kashima Antlers continuou mesmo após a aposentadoria de Zico. Indicado pelo ex-camisa 10 para assumir o comando da equipe em 2000, Toninho Cerezo conquistou dois títulos da J.League e ajudou a desenvolver jogadores das categorias de base.

Segundo Rudnick, da PUCPR, o treinador também soube identificar aspectos em que o futebol japonês ainda precisava se desenvolver. Dessa forma, a escolha de Cerezo deu sequência a uma tradição do Kashima Antlers, que durante anos manteve apenas técnicos brasileiros no comando da equipe.

Cerezo, no entanto, fez parte de um grupo maior de profissionais que ajudou a consolidar o futebol japonês. Rudnick destaca Oswaldo de Oliveira, o treinador mais vitorioso da história da J.League, também pelo Kashima Antlers, além de Nelsinho Baptista, que conquistou títulos importantes pelo Verdy Kawasaki e pelo Kashiwa Reysol.

Levir Culpi
Técnicos como Levir Culpi treinaram times do Japão

Outro nome lembrado pelo especialista é Levir Culpi, que passou mais de oito temporadas no futebol japonês e manteve uma relação duradoura com o país, onde chegou a abrir um restaurante de culinária japonesa em Curitiba após retornar ao Brasil.

Além dos treinadores, jogadores como César Sampaio, Jorginho, Bismarck e Alcindo atuaram no Japão ao longo da década de 1990. Para Leal, a chegada desses atletas ajudou a oferecer aos japoneses uma referência prática do nível exigido pelo futebol internacional e contribuiu para acelerar o desenvolvimento da modalidade.

O ex-técnico Joel Santana, que comandou o time japonês Vegalta Sendai em 2006, resume a influência brasileira para além dos títulos. “Acima de tudo, levamos a cultura do futebol brasileiro para lá”, afirma. Segundo ele, os treinadores brasileiros contribuíram para introduzir novos conceitos táticos e uma forma diferente de interpretar o jogo, influência que ajudou a moldar a evolução do futebol japonês nas décadas seguintes.

De ‘aluno’ a rival

Décadas depois de buscar referências no Brasil, o Japão chega ao confronto de segunda-feira em outro estágio.

Para Tiago Bontempo, a seleção japonesa já desenvolveu um estilo próprio, embora ainda carregue influências externas. Segundo ele, o Brasil contribuiu com a valorização da técnica e da troca de passes, enquanto a Alemanha influenciou a disciplina dos treinamentos, principalmente a partir do trabalho de Dettmar Cramer nos anos 1960.

“Desde 1980, a cada década a seleção japonesa tem uma geração melhor que a anterior, que é chamada de melhor da história do país”, afirma Bontempo. Para o comentarista esportivo, o Japão chegou a um ponto em que é capaz de competir com as principais seleções do mundo, movimento que ficou mais evidente a partir da Copa de 2022.

O confronto contra o Brasil, diz Bontempo, tem peso simbólico para o futebol japonês.

“Se o aluno derrotar o mestre no maior palco do mundo, seria a ratificação de toda essa evolução ao longo dos anos”, afirma. Para ele, uma derrota não teria o mesmo peso das eliminações anteriores, mas uma vitória representaria um marco na trajetória da seleção.

Já Leal vê o Brasil como favorito, mas afirma que o Japão chega com chances reais. Para ele, a seleção japonesa ainda tem dificuldade para enfrentar equipes sul-americanas, especialmente pelo contato físico, pelas faltas táticas e pela forma como Brasil e Argentina controlam o ritmo do jogo.

“Vejo 70% a 30% de chances para o Brasil. Mas 30% é uma chance razoável. Não é uma chance desprezível”, diz.

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