

Especialistas defendem que as plataformas digitais devem ser capazes de controlar riscos em seus próprios ambientes, especialmente para os menores
Por Rafaela Bomfim*, Maria Beatriz Giusti* e Caetano Yamamoto* - Correio Braziliense
O Discord anunciou, ontem, que suspendeu as transmissões ao vivo em sua plataforma, seguindo uma determinação da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), em resposta às falhas identificadas na proteção de crianças e adolescentes dentro do aplicativo.
A decisão ocorreu após a morte de uma adolescente de 13 anos, em julho, durante uma transmissão, caso que levou autoridades a ampliarem a fiscalização sobre os mecanismos utilizados pela empresa para identificar situações de risco.
A determinação da ANPD, anunciada em 12 de agosto, estabeleceu prazo de três dias úteis para que o Discord interrompesse a ferramenta Go Live, usada para compartilhar vídeos e telas em tempo real dentro dos servidores. Recursos como mensagens, chamadas de voz e participação em comunidades continuam disponíveis para os usuários brasileiros.
O episódio investigado revelou uma sequência de falhas no sistema de resposta. Segundo relatório encaminhado pelo Discord ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, a transmissão teve início por volta das 2h30. O primeiro alerta relacionado a risco iminente apareceu às 3h50, mas o servidor somente foi retirado do ar às 4h15. O intervalo entre a identificação do problema e a interrupção da atividade passou a ser um dos pontos analisados pelas autoridades.
Na avaliação da ANPD, a estrutura de proteção adotada pela empresa não foi suficiente para impedir ou interromper situações perigosas envolvendo menores de idade.
Em comunicado, o Discord afirmou que trabalha “de boa-fé” com a agência para restabelecer a funcionalidade. Também informou que tem colaborado com autoridades policiais na investigação do caso e que trabalha para retirar criminosos da plataforma e ampliar a segurança destinada aos adolescentes.
O especialista em crimes cibernéticos Rodrigo Fragola avalia que o episódio não deve ser tratado apenas como uma falha técnica isolada. Para ele, existe uma questão relacionada à estrutura de segurança e governança do serviço. “Uma plataforma pode não controlar tudo o que seus usuários fazem, mas precisa controlar os riscos que a sua própria tecnologia cria”, afirmou.
Fragola explica que parte da dificuldade está na dependência de denúncias feitas pelos próprios participantes e na atuação de sistemas automatizados. Segundo o especialista, a ANPD identificou situações em que mecanismos de análise comportamental não reconheceram adequadamente acontecimentos graves. A existência de servidores privados também dificulta a identificação antecipada de comportamentos criminosos.
Entre as medidas que poderiam reduzir esses riscos estão verificação de idade, configurações mais restritivas para contas de menores, análise de comportamento, identificação de comunidades de risco, canais eficientes de denúncia e atuação humana em situações urgentes. “Quando estamos falando de crianças e adolescentes, o nível aceitável de risco, necessariamente, deve ser menor”, afirmou Fragola.
A transmissão em tempo real acrescenta outro fator à discussão. Diferentemente de um conteúdo gravado, uma live permite que determinada situação aconteça diante de outras pessoas. Para o especialista, esse formato pode ser utilizado em episódios de violência, assédio, indução à automutilação, chantagem e outras práticas criminosas.
O Discord, por outro lado, sustenta que parte das atividades investigadas teria sido organizada em outras plataformas antes da criação do servidor e continuado fora do serviço após o banimento dos envolvidos. Para Fragola, esse argumento demonstra que a retirada de usuários não resolve, sozinha, a questão. “No ambiente digital, o crime pode mudar de plataforma em segundos. A proteção precisa ser capaz de acompanhar essa velocidade”, declarou.
O impacto da decisão também precisa ser observado diante do tamanho do Discord no país. Dados da Similarweb indicam que o Brasil é o segundo maior mercado da plataforma, atrás apenas dos Estados Unidos. Entre fevereiro e julho de 2026, foram registrados 162 milhões de visitas ao aplicativo no Brasil, com média mensal de 27 milhões de acessos.
O perfil do público também ajuda a explicar a relevância do caso. A pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024 apontou que 8% dos usuários de internet entre 9 e 17 anos disseram possuir perfil próprio no Discord. Entre meninos, o índice chegou a 16%, enquanto, entre meninas, ficou em 1%.
Criado em 2015 para facilitar a comunicação entre jogadores, o serviço ultrapassou o universo dos games e passou a reunir comunidades sobre programação, inteligência artificial, estudos, anime, cultura pop e outros assuntos. A plataforma afirma possuir mais de 90 milhões de usuários ativos diariamente no mundo, e mais de 90% desse público declara jogar videogame.
O funcionamento por servidores diferencia o Discord de redes sociais baseadas em um fluxo central de publicações. Cada comunidade pode criar canais de texto, voz e vídeo, além de definir regras próprias de acesso. Existem espaços abertos, restritos ou acessíveis somente por convite, característica que amplia a autonomia dos administradores, e dificulta a fiscalização de interações.
Denúncias encaminhadas à SaferNet também entraram no debate. Segundo dados citados pela imprensa, os registros envolvendo o Discord cresceram de 264 para 406 nos sete primeiros meses de 2026, aumento de 54%. A entidade recebe denúncias relacionadas a crimes e violações de direitos humanos praticados no ambiente digital.
Para Fragola, a interrupção da ferramenta de transmissão deve ser vista como uma resposta emergencial, e não como solução definitiva. “Não basta retirar o criminoso da plataforma; é preciso retirar da plataforma as condições que facilitam a ação do criminoso”, afirmou.
A ANPD ainda analisa as medidas adotadas pelo Discord e as condições de proteção oferecidas para os menores de idade. Procurada pelo Correio para comentar o caso, a agência não respondeu até o fechamento desta edição.
*Estagiários sob a supervisão de Victor Correia

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