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Doação de órgãos oferece nova chance a milhares de pacientes

Brasil
Saúde
Publicado em 8 de junho de 2026
Doação de órgãos oferece nova chance a milhares de pacientes
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Diálogo familiar e complexidades regionais desafiam a engrenagem de transplantes de órgãos no Brasil



Por Eduardo Fernandes - Correio Braziliense

A doação e o transplante de órgãos funcionam como uma engrenagem complexa que corre contra o relógio. Mais do que a burocracia e a complexidade que existem dentro desse procedimento cirúrgico, há, ainda, um gesto profundo, sensível, à espera do sim de uma família que, no pior dia da sua vida, pode acabar salvando outras.

Hoje, o Brasil se destaca por abrigar um dos maiores programas públicos de transplantes do mundo, financiado majoritariamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). No entanto, existem desafios a serem superados.

O nefrologista, cirurgião e coordenador do Programa de Transplantes do Hospital Santa Lúcia, Elber Rocha, destaca que o maior mérito nacional foi construir uma política pública regulada, com lista única e critérios estritamente técnicos, garantindo acesso universal independentemente da condição econômica do paciente. Contudo, para ele, o sistema enfrenta o desafio da heterogeneidade institucional e geográfica. 

Enquanto o Brasil registra cerca de 18 doadores por milhão de habitantes — distante de líderes globais como a Espanha, que alcança médias de 45 a 48 —, o acesso real ao procedimento varia drasticamente entre diferentes estados brasileiros. “A nível nacional, não tem um único sistema de transplantes funcionando de forma homogênea. Temos lugares de excelência e regiões com severas dificuldades de notificação, diagnóstico de morte encefálica e logística”, pontua o profissional.

O que é?

O transplante de órgãos consiste na substituição de um órgão doente ou disfuncional por um outro saudável, proveniente de um doador vivo ou falecido. Trata-se da principal alternativa terapêutica para pacientes com insuficiência terminal de órgãos vitais, visando restabelecer funções biológicas essenciais e salvar vidas.

Destaque mundial

Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil registrou mais de 31 mil transplantes de órgãos e tecidos, em 2025. Um recorde histórico, muito impulsionado pela acessibilidade fornecida por meio do SUS. 

Fila de espera

Apesar dos avanços, muitas famílias ainda aguardam na fila de espera por um órgão. São mais de 80 mil brasileiros, sendo que 48 mil esperam por órgãos sólidos (como rins, fígados e corações), enquanto mais de 32 mil aguardam por transplantes de córnea.

Rotina exaustiva

Para Silvia Casas, diretora médica de transplantes na Werfen da América Latina, a jornada de quem aguarda um órgão é marcada por uma severa carga física e emocional. “Para o corpo médico, o tempo em lista exige uma conduta clínica de alta vigilância para manter o paciente transplantável, controlando ativamente infecções, anemias e doenças cardiovasculares que possam comprometer a futura cirurgia.”

Tipos de doadores

Os transplantes podem ser realizados a partir de dois tipos de doadores: o doador falecido, que consiste em pacientes hospitalizados com quadro confirmado de morte encefálica — geralmente decorrente de AVC ou traumatismo craniano — aptos a doar órgãos como coração, pulmões, fígado e rins, além de tecidos; e o doador vivo, que compreende qualquer pessoa juridicamente capaz que, após uma rigorosa avaliação médica e imunológica, concorde em doar um de seus rins ou parte do fígado e do pulmão para parentes de até quarto grau, sendo exigida autorização judicial em casos de doação para não parentes. 

Palavra do Especialista

Como é a rotina e a qualidade de vida real de um paciente transplantado? 

Para a maioria dos pacientes, o transplante representa uma transformação profunda na qualidade de vida. Muitas pessoas conseguem retomar atividades profissionais, estudos, convivência social e projetos que estavam limitados pela doença. No entanto, o transplante não significa cura definitiva. O paciente continua necessitando de acompanhamento médico regular, exames laboratoriais periódicos e uso contínuo de medicamentos imunossupressores. A rotina exige disciplina e compromisso com o tratamento. Apesar dessas exigências, a grande maioria relata melhora significativa da autonomia, da capacidade física e do bem-estar. O objetivo do transplante é justamente devolver anos de vida com mais qualidade e independência. 

A recusa das famílias em autorizar a doação ainda é um dos maiores obstáculos para o crescimento dos transplantes. O que precisa mudar?

A decisão sobre a doação costuma ocorrer em um momento de profunda dor para a família, logo após a confirmação da morte de um ente querido. Em muitos casos, esse tema nunca foi discutido previamente entre os familiares, o que aumenta a insegurança no momento da escolha. Além disso, a legislação brasileira atribui à família a autorização final para a doação após a morte. Por isso, no Brasil, conversar em vida sobre o desejo de ser doador é uma das medidas mais eficazes para reduzir dúvidas, facilitar a tomada de decisão e ampliar as chances de beneficiar pacientes que aguardam na lista de espera.

Quais os desafios para quem recebe algum tipo de transplante, falando no pós-cirúrgico? 

Os principais desafios do pós-transplante envolvem a adaptação ao novo tratamento e a prevenção de complicações. Os medicamentos imunossupressores, fundamentais para evitar a rejeição do órgão, precisam ser tomados corretamente e por toda a vida. Além disso, esses medicamentos podem aumentar o risco de infecções e exigir monitoramento constante. O paciente também deve adotar hábitos saudáveis, manter consultas regulares e realizar exames periódicos. Atualmente, os testes laboratoriais imunológicos desempenham um papel cada vez mais importante nesse acompanhamento, permitindo avaliar de forma mais precisa o risco de rejeição e identificar precocemente alterações que possam comprometer o funcionamento do órgão transplantado. Outro aspecto relevante é o impacto emocional, pois muitos pacientes enfrentam ansiedade e expectativas elevadas após a cirurgia. O acompanhamento multiprofissional é essencial para garantir bons resultados a longo prazo.

Silvia Casas é diretora médica de transplantes na Werfen da América Latina

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