

Frente fria, área de baixa pressão e contraste entre massas de ar favoreceram rajadas destrutivas no Sudeste, explica expecialista
Por Nathallie Lopes - Correio Braziliense
Os ventos que atingiram São Paulo e o Rio de Janeiro na quarta-feira (29/7), com rajadas superiores a 120 km/h em alguns pontos, foram provocados principalmente pela aproximação e passagem de uma frente fria associada a uma área de baixa pressão atmosférica. O fenômeno deixou cinco mortos e provocou diversos estragos nos dois estados.
Ao Correio, a meteorologista Andrea Ramos explica que rajadas dessa intensidade não são comuns no Sudeste e que ocorreu em um cenário de forte contraste entre massas de ar.
Segundo Ramos, o episódio ocorreu após um período de bloqueio atmosférico, comum durante o inverno, que dificultava o avanço de sistemas frontais sobre o Sudeste e mantinha o tempo quente, seco e com baixa umidade favorecendo o acúmulo de calor próximo à superfície.
Com isso, a chegada da frente fria, vinda do sul, enquanto a massa de ar quente permanecia sobre o Sudeste aumentou o contraste de temperatura e de pressão, favorecendo a intensificação dos ventos.
Esse cenário também favoreceu a formação de tempestades com grande desenvolvimento vertical. Em alguns pontos, correntes descendentes dentro dessas tempestades podem ter reforçado localmente as rajadas.
“O mecanismo regional predominante foi a quebra do bloqueio e o avanço da frente fria, que intensificaram o gradiente de pressão e aceleraram os ventos sobre São Paulo e o Rio de Janeiro”, diz.
De acordo com Andrea, rajadas desse tipo podem ser potencialmente destrutivas, sobretudo longe das áreas serranas, do litoral exposto ou de regiões atingidas por tempestades muito severas.
Segundo Andrea, não é possível afirmar que as mudanças climáticas tenham causado diretamente o episódio. Para estabelecer essa relação, seria necessário um estudo específico de atribuição.
Para ela, o aquecimento global pode sim aumentar a quantidade de vapor d’água disponível na atmosfera e favorecer maior instabilidade e intensidade da precipitação dentro das tempestades, contribuindo para ambientes mais propícios a fenômenos severos.
Porém, “é tecnicamente mais adequado dizer que as mudanças climáticas podem tornar alguns ambientes de tempestade mais energéticos, mas ainda não está demonstrado que episódios de ventos extremos estejam necessariamente se tornando mais frequentes no Sudeste brasileiro”, explica.
Os modelos meteorológicos conseguem indicar com antecedência que determinada região terá condições favoráveis à formação de tempestades severas e rajadas fortes. A dificuldade está em prever exatamente onde ocorrerá o fenômeno mais intenso.
“Os modelos conseguem indicar com boa antecedência que determinada região terá um ambiente favorável a tempestades severas e rajadas fortes, mas ainda apresentam limitações para prever exatamente em qual município ou bairro ocorrerá uma microexplosão”, explica Andrea.
Isso ocorre porque uma microexplosão pode ter poucos quilômetros de extensão e durar apenas alguns minutos. Radares meteorológicos, imagens de satélite, estações automáticas e monitoramento em tempo real ajudam a melhorar os alertas de curtíssimo prazo.
Ainda assim, o local exato e a intensidade máxima de uma rajada muitas vezes só podem ser identificados poucos minutos antes ou durante a formação da tempestade.
Entre esta quinta-feira (30/7) e o início de sexta-feira (31/7), a circulação marítima deve manter maior nebulosidade e favorecer garoa ou chuva fraca no litoral paulista, no Vale do Paraíba, no centro-sul e litoral fluminense e, posteriormente, no sul do Espírito Santo.
No interior da região, o tempo tende a permanecer firme, com madrugadas mais frias e tardes secas. Ao longo do fim de semana, a tendência é de melhora gradual, com possibilidade de chuvas com baixos acumulados e elevação progressiva das temperaturas.
Neste momento, segundo Andrea, não há indicação de repetição imediata de um episódio amplo de tempestades severas e rajadas extremas como o registrado na quarta-feira (29).

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