

Quase metade dos pedidos de benefícios foi indeferida em 2026, enquanto governo acelera redução do estoque antes das eleições
Por Rafaela Gonçalves - Correio Braziliense
A redução da fila de espera do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) ganhou velocidade em 2026, mas o movimento veio acompanhado de um aumento expressivo no número de pedidos de benefícios negados. Dados do Ministério da Previdência mostram que o volume de indeferimentos atingiu o maior patamar desde 2021, enquanto o governo busca cumprir a meta de reduzir o estoque de requerimentos antes do primeiro turno das eleições.
Em junho, o INSS rejeitou 938,2 mil solicitações e concedeu 792,5 mil benefícios. No acumulado do primeiro semestre, foram 4,3 milhões de indeferimentos contra 4,2 milhões de concessões, levando a taxa de negativas no período a 50,5%.
Já a média mensal de pedidos rejeitados entre janeiro e maio deste ano chegou a 668,6 mil, alta de aproximadamente 70% em relação ao mesmo período de 2025, quando o volume médio de indeferimentos era de 395 mil por mês.
E.M. Oliveira, que preferie não revelar o seu nome por extenso por receio de represálias, conta que ficou admirada ao ver que seu pedido de benefício temporário, feito em maio, foi analisado em uma semana. Estranhou, no entanto, que a análise resultou em indeferimento. ”Causou-me estranheza que o resultado tenha saído tão rapidamente, sem que houvesse perícia e sem que houvesse sequer a análise dos atestados comprobatórios de que eu havia me submetido a uma cirurgia e precisava desse afastamento”, comenta. Ela entrou com recurso, que segue há três meses em análise. “Estou sem receber proventos desde então. As contas estão atrasadas e só consigo me sustentar porque contamos com a renda do meu marido”, completa.
O aumento das negativas ocorreu em paralelo à queda expressiva da fila de espera do INSS. O estoque de requerimentos atingiu o recorde de 3,1 milhões em fevereiro e recuou para 1,5 milhão em julho, menos da metade do pico registrado no início do ano. Os dados foram apresentados nesta semana durante reunião do Conselho Nacional de Previdência Social (CNPS) e ainda não constam do Boletim Estatístico da Previdência Social (BEPS), que teve a última divulgação em junho. A meta do governo é reduzir o volume para 1,3 milhão em setembro, um mês antes do primeiro turno das eleições.
A queda da fila também foi influenciada pelo crescimento das concessões. A média mensal de benefícios aprovados passou de 608,6 mil para 683,8 mil entre janeiro e maio, avanço de 12,3% na comparação com o mesmo período do ano anterior.
Apesar da redução do passivo, o conceito de “zerar a fila” adotado pelo Ministério da Previdência não significa eliminar todos os requerimentos pendentes. A meta da pasta é encerrar o estoque de processos que aguardam análise há mais de 45 dias, prazo considerado limite para a resposta do INSS.
Esse volume caiu de 1,882 milhão para 486 mil solicitações, uma redução de 74%. O indicador é usado pelo governo para medir a eficiência do processamento, mas especialistas destacam que o número total de requerimentos ainda representa um desafio estrutural para o sistema previdenciário.
Segundo a Previdência, o avanço é resultado de medidas como o pagamento de bônus a servidores, a contratação de novos peritos médicos, alterações no Atestmed — sistema que permite a concessão de auxílio por incapacidade temporária por meio de análise documental — e a realização de mutirões. Procurada pelo Correio para explicar o aumento expressivo dos indeferimentos, a pasta não respondeu aos questionamentos até o fechamento desta reportagem.
A redução da fila é considerada positiva por especialistas, mas o avanço dos indeferimentos coloca em discussão a qualidade e os efeitos dessa estratégia. A queda do estoque, portanto, precisa ser analisada não apenas pelo volume de processos concluídos, mas também pelo resultado das decisões tomadas pelo INSS.
Para a advogada previdenciarista Jéssica Matias, a combinação dos dois movimentos merece ser avaliada com cautela. “A redução da fila do INSS aparece, num primeiro momento, como uma notícia positiva, de mais agilidade e eficiência nas análises dos benefícios. Mas esses números precisam ser analisados em conjunto. Ao mesmo tempo em que a fila diminuiu, a média mensal de benefícios indeferidos teve um crescimento de quase 70% em comparação com o mesmo período de 2025, segundo os dados oficiais do próprio Ministério da Previdência Social”, afirma.
A alta nas negativas pode refletir uma triagem mais eficiente de requerimentos que não atendem aos critérios para concessão, mas também pode ampliar o número de segurados que precisam recorrer das decisões. Jéssica ressalta, no entanto, que os dados não permitem concluir, por si só, que os indeferimentos tenham sido equivocados.
“Os dados isolados não permitem afirmar que todos esses indeferimentos estão equivocados, porque existem casos em que o segurado não preencheu os requisitos ou não apresentou a documentação necessária. Mas um crescimento dessa proporção gera questionamentos sobre a qualidade das análises que estão sendo realizadas”, explica.
O impacto da estratégia também pode ultrapassar os limites da própria fila administrativa. Para o advogado previdenciarista Eliseu Mariano, sócio do Eliseu Fernando Galdino Mariano Advocacia, uma eventual reversão das negativas pode aumentar a pressão sobre as instâncias responsáveis pela revisão das decisões e sobre o Judiciário.
“Se os indeferimentos forem juridicamente consistentes, a tendência é que poucos sejam revertidos. Entretanto, se houver negativas fundamentadas em interpretações excessivamente restritivas ou em análises superficiais, o segurado buscará naturalmente a revisão da decisão”, destaca.
Na avaliação do advogado, a eventual migração desses processos para recursos administrativos e ações judiciais pode comprometer parte do ganho obtido com a redução do estoque. O resultado também não elimina os gargalos que historicamente pressionam o INSS, como a falta de servidores, o crescimento da demanda previdenciária e a necessidade de investimentos em tecnologia e capacitação.
“A redução da fila é uma notícia positiva, mas está longe de representar a solução definitiva dos problemas estruturais do INSS. O Instituto ainda enfrenta desafios históricos, como deficit de servidores, aumento constante da demanda previdenciária decorrente do envelhecimento da população, alterações frequentes na legislação e necessidade permanente de investimentos em tecnologia e capacitação”, avalia.
Para Mariano, a continuidade das medidas de gestão e a recomposição da capacidade de atendimento serão determinantes para evitar que o estoque volte a crescer nos próximos anos.
A fila do INSS se tornou uma das principais promessas da campanha presidencial de 2022, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que buscaria eliminar a espera por benefícios previdenciários. Desde então, a redução do estoque de requerimentos passou a ser uma das principais cobranças sobre a gestão do órgão.
A pressão chegou ao comando do órgão. Em abril deste ano, o então presidente do INSS, Gilberto Waller Júnior, deixou o cargo em meio às cobranças pela demora na análise dos processos e pelo tamanho da fila de benefícios. Ele foi substituído por Ana Cristina Viana Silveira, que assume a presidência do instituto desde então.
Waller foi o primeiro dirigente recente do órgão a ser trocado de forma direta em razão da dificuldade de reduzir o volume acumulado de requerimentos. Antes dele, Alessandro Stefanutto deixou a presidência do instituto em 2025 após ser preso durante a investigação da Operação Sem Desconto, que apurou um esquema bilionário de descontos associativos indevidos em benefícios de aposentados e pensionistas.

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