

O Marrocos enfrenta a França nas quartas de final da Copa de 2026 e os Leões do Atlas buscam ficar novamente entre os quatro melhores colocados do torneio.
Ciaran Kelly - Repórter de futebol
“O Marrocos tem potencial para se tornar uma potência do futebol mundial.”
A afirmação do galês Neil Ward é ousada. Mas ele presenciou a paixão do país pelo esporte e planeja tudo com antecipação.
Ward foi diretor da Fundação da Associação de Futebol do País de Gales e deixou seu país em 2020, para assumir o cargo de diretor de operações técnicas da Federação Real Marroquina de Futebol.
Ele estava na capital do Marrocos, Rabat, quando o país se tornou a primeira nação da África a chegar às semifinais da Copa do Mundo da Fifa de Futebol Masculino em 2022, no Catar.
Ele pôde observar como aquele feito “tomou conta de toda a cidade, desde as primeiras horas da manhã. Até o rei comemorou”.
Os Leões do Atlas foram batidos pela França por 2 x 0. Mas, agora, eles querem fazer história mais uma vez, enfrentando novamente os Azuis nesta quinta-feira, às 17 horas de Brasília, em busca de um lugar entre os quatro melhores do planeta.
Aconteça o que acontecer no Estádio de Boston, nos Estados Unidos, o Marrocos não se dará por vencido. Afinal, o país é um dos anfitriões da próxima Copa do Mundo, em 2030, ao lado da Espanha e Portugal, além do Uruguai, Argentina e Paraguai.
Simon Jennings, outro britânico, conhece a disposição dos marroquinos mais do que a maioria das pessoas. Além de trabalhar na formação de treinadores, ele foi responsável pelo desenvolvimento das categorias de base do Marrocos entre 2020 e 2024.
“Não é um acidente”, ele conta. “É o resultado de uma clara ambição nacional.”
Esta ambição vem de cima. Houve investimentos contínuos no esporte, com o apoio do rei Mohammed 6°.
O país aplicou muito dinheiro em uma instalação de treinamento de primeira linha, uma academia nacional, centros de treinamento regionais, renovações de estádios e milhares de campos amadores.
“Você precisa dessas instalações de ponta para os jogadores que estão na Europa, acostumados a este nível”, explica Ward.
“Por isso, quando você chega e observa uma instalação de treinamento deste calibre, ela demonstra que estas pessoas são sérias e querem ter sucesso.”
Muito reclamaram no país, dizendo que esses fundos seriam mais necessários em áreas como à educação, assistência médica, moradia, transporte e criação de empregos.
Em resposta, o palácio real prometeu alocar, no orçamento de 2026, o equivalente a US$ 15 bilhões (cerca de R$ 77,2 bilhões) para a saúde e educação. Este número representa um aumento de 16% sobre os valores do ano passado.
Ward trabalhou para a Federação Marroquina entre 2020 e 2024. Para ele, a motivação por trás do investimento do país no futebol é clara.
Eles pretendem tirar proveito da paixão do Marrocos pelo esporte e conquistar “soft power no cenário internacional”, provando que o país é competitivo.
Neste particular, houve uma mudança de mentalidade.
Até a participação na Copa de 2022, o Marrocos havia atingido apenas uma vez a fase de mata-mata. O país disputou as oitavas de final em 1998, na França.
Mas, antes mesmo da bola rolar no Catar, o então técnico Walid Regragui deixou claro aos seus jogadores que eles não estavam viajando apenas para disputar as três partidas da fase de grupos.
Eles iriam fazer algo mais do que isso.

O Marrocos contou com o apoio da sua diáspora para chegar tão longe, além dos jogadores nascidos no país.
O Ministério de Relações Exteriores do Marrocos calcula que mais de cinco milhões de marroquinos vivam no exterior.
O país busca identificar e buscar atletas promissores com raízes no Marrocos ainda em estágio inicial. Para isso, existem olheiros destacados em tempo integral na França, Holanda, Espanha, Alemanha, Noruega, Suécia e Dinamarca.
Jennings conta que eles são “acolhidos como marroquinos”.
“Você não tem a sensação de estar em uma segunda nação”, explica ele.
“Eles são totalmente marroquinos. É uma paixão que eles têm e uma nacionalidade que eles defendem com firmeza.”
Os resultados são surpreendentes. Dos 26 convocados para a seleção do Marrocos nesta Copa do Mundo, 19 nasceram fora do país.
Seis destes jogadores poderiam estar na seleção da França, adversária dos marroquinos nas quartas de final.
Um deles é o meio-campista da equipe francesa do Lille, Ayyoub Bouaddi. Hoje com 18 anos de idade, ele chegou a jogar pela França nas categorias inferiores, mas sempre teve orgulho de suas origens.
O mesmo ocorreu com o astro adolescente da Espanha Lamine Yamal. Seu pai é marroquino e a Federação do Marrocos chegou a se encontrar com o jogador e sua família.
Ward destaca que “nenhuma pedra deixa de ser examinada” quando o assunto é a identificação de talentos, mesmo que o resultado nem sempre seja positivo.
“Lembro quando estavam conversando sobre Yamal, aquele enorme e promissor talento do Barcelona [Espanha], quando tinha cerca de 12 ou 13 anos de idade”, ele conta. Mas Yamal optou por jogar pela Seleção Espanhola.
A próxima etapa para o Marrocos é trazer mais jogadores internacionais para a sua linha de produção doméstica.
Chris van Puyvelde foi diretor técnico da Federação Marroquina entre 2022 e 2025. Ele conta que o objetivo do país para a próxima Copa do Mundo é ter 50% de jogadores nascidos no Marrocos e 50% de oriundos do exterior.
Mas ele alerta que a “organização como um todo, dentro do país, precisa melhorar”.
Existe um delicado equilíbrio a atingir, considerando a demanda cada vez maior por resultados.
O técnico do Marrocos, Mohamed Ouahbi, já vivenciou a necessidade de obter sucesso. Seu time sub-20 não conseguiu se classificar para a Copa Africana de Nações de 2023.
Mas, com a renovação do apoio e uma dose de paciência, o belga Ouahbi e sua equipe conseguiram vencer a Copa do Mundo Sub-20 em 2025.
Ele foi promovido a técnico da seleção principal poucos meses depois, quando Regragui se demitiu, após a derrota para o Senegal na final da Copa Africana de Nações no início deste ano (o Senegal venceu na prorrogação, mas o título foi dado posteriormente ao Marrocos pela Confederação Africana de Futebol).
Ouahbi precisava virar a página rapidamente antes da Copa do Mundo. Mas a Federação Marroquina mostrou visão de futuro, fechando contrato com ele até o torneio de 2030.
Parece que o Marrocos está literalmente construindo algo, enquanto se prepara para ser um dos anfitriões da próxima Copa do Mundo.
“Além de estádios, eles também estão construindo a estrutura a partir do zero”, destaca Van Puyvelde.
“Quando você consegue um pouco de oxigênio, como o Marrocos fez no Catar, começa a ver a energia se espalhando muito rápido, por todo o país.”

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