

Inglaterra é a última fronteira entre o camisa 10 e a terceira decisão de Copa do Mundo. Se avançar com a Argentina, craque alcançará o Rei do Futebol em campanhas finalistas e deixará Maradona para trás
Victor Parrini — Enviado especial - Correio Braziliense
Atlanta — Lionel Messi, 39 anos. Seis Copas do Mundo. Trinta e dois jogos. Vinte e uma bolas na rede. Dez assistências. Um título mundial. A Messi foi dado o que é de Messi em 2022. O título que lhe faltava era o desfecho perfeito. Só que gênios raramente convivem bem com finais. O jogador, eleito oito vezes o melhor do planeta, recusa-se a parar. Nele está a fé que move a Argentina depois de duas prorrogações e da classificação sofrida diante do Egito. Contra a Inglaterra, nesta quarta-feira (15/7), no Mercedes-Benz Stadium, em Atlanta, pode conduzir a Albiceleste à terceira decisão nas últimas quatro Copas, deixar Diego Maradona para trás e aproximar-se do único parâmetro que resta: Pelé.
Guardadas as diferenças entre gerações, o debate sobre quem foi o maior não cabe nesta história. A semifinal contra a Inglaterra coloca Messi diante de outro desafio: aproximar-se de um feito que transformou Pelé em uma exceção nas Copas do Mundo. O Rei foi fundamental nas campanhas de 1958, 1962 e 1970. Embora tenha ficado fora da decisão no Chile por causa de uma lesão sofrida na fase de grupos, integrou a campanha do bicampeonato mundial e voltou a ser protagonista oito anos depois, no México. Na mesma corrida, Mbappé pode alcançar o tri pessoal (já esteve em 2018 e 2022), nesta terça-feira (14/7), se bater a Espanha.
Messi já igualou Diego Maradona em número de finais de Copa do Mundo. Foi vice diante da Alemanha em 2014 e campeão contra a França em 2022. El Dios conduziu a Argentina às decisões de 1986 e 1990, também com um título e um vice contra os alemães. A semifinal diante da Inglaterra oferece ao sucessor a oportunidade de ultrapassar o mestre e seguir na direção de Pelé.
Há um pacto na Argentina: jogar para Messi e por Messi. Os números ajudam a explicar. O camisa 10 participou diretamente de 10 dos 17 gols da atual campeã mundial na Copa, com oito bolas na rede e duas assistências. Quando a jogada não termina nos pés dele, começa por eles. Quando não toca na bola, aponta caminhos, acelera movimentos e dita o ritmo da equipe.
A devoção ao capitão também ganhou voz. Os jogadores transformaram Messi em personagem das músicas entoadas antes e depois das partidas. Uma delas resume o espírito da campanha: “Pelas Malvinas, por Diego e pela última de Leo”. Em um único verso, a seleção reúne a guerra que eternizou a rivalidade com a Inglaterra, a memória de Maradona e o desejo coletivo de prolongar a despedida do maior ídolo da geração.
A classificação sobre a Suíça resumiu o momento vivido pelo camisa 10. Houve sangue, discussão com a arbitragem, assistência, sofrimento e alívio. O gol não veio pela primeira vez após nove partidas consecutivas balançando as redes, mas pouco importou. Messi continuou sendo o centro gravitacional da equipe, mesmo sem marcar.
A caminhada da Argentina até a semifinal esteve longe de ser celestial. Foi construída quase como um livro do Velho Testamento, à base de provações. Houve pênalti desperdiçado, viradas, gols nos acréscimos, duas prorrogações consecutivas e uma carga física que começa a cobrar a conta às vésperas do duelo com a Inglaterra.
O desgaste coletivo ajuda a explicar um paradoxo. Aos 39 anos, Messi continua inteiro justamente porque a Argentina aprendeu a correr por ele. Em vez de exigir que o camisa 10 acompanhasse o ritmo frenético do futebol moderno, Lionel Scaloni reduziu a velocidade da equipe. A atual campeã mundial está entre as seleções que menos aceleram e menos percorrem distâncias em alta intensidade nesta Copa. A cadência passou a ser ditada pelo capitão. Quando Messi anda, a Argentina pensa. Quando acelera, todos o acompanham.

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