

Lucimar das Neves Ferreira foi encontrado morto em Aparecida de Goiânia. Ele tinha 14 anos quando foi contaminado por césio-137, em 1987
Por Maria Dulce Miranda - Estado de Minas
Lucimar das Neves Ferreira, um dos sobreviventes do acidente com o Césio-137 em Goiânia (GO), foi encontrado morto nesse sábado (25/7), em Aparecida de Goiânia (GO). A informação foi confirmada pela família. Até o momento, a causa da morte não foi divulgada.
A morte de Lucimar fez com que o termo “césio” registrasse um crescimento superior a 1.000% nas buscas do Google, segundo dados do Google Trends.
O homem foi velado e sepultado na manhã de domingo (26/7), em Abadia de Goiás. Ele era irmão mais velho de Leide das Neves Ferreira, a primeira vítima do acidente radiológico de 1987, que morreu aos seis anos após ser contaminada pela substância radioativa.
Segundo a mãe, Lourdes das Neves, Lucimar tinha apenas 14 anos quando também foi contaminado pelo Césio-137. Embora tenha sobrevivido, conviveu durante toda a vida com as consequências físicas e emocionais da tragédia.
Em entrevista concedida ao jornal Opção em março deste ano, Lucimar relatou que jamais conseguiu levar uma vida plenamente normal após o acidente. “Do nada, vem uma tristeza. Parece um distúrbio”, declarou na ocasião.
Após a contaminação, ele precisou enfrentar longos períodos de isolamento e internação hospitalar, assim como outras vítimas expostas à radiação. A morte de Lucimar também emocionou integrantes da Associação das Vítimas do Césio-137 (AVCésio). O presidente da entidade, Marcelo Santos Neves, afirmou que a perda revive as lembranças do período mais difícil vivido pelas famílias atingidas.
“A gente relembra todas as mazelas que esse acidente trouxe. Agora, a gente tem que dar o máximo de apoio possível porque vai ser muito dolorido, por mais que ela [a mãe de Lucimar, Lourdes das Neves] já esteja calejada com essas dores de perda da filha, agora o filho”, declarou ao G1.
Marcelo contou ainda que acompanhou Lucimar desde a época do acidente e recordou momentos da infância do sobrevivente. “Eu lembro que, na época, ele não tinha onde ficar durante o dia porque estava um tumulto danado. Eu pegava ele e levava para minha casa. Eu tinha os meninos também da idade dele e punha eles para jogar videogame”, relembrou.
O acidente começou em 13 de setembro de 1987, quando dois catadores retiraram um aparelho de radioterapia abandonado de uma clínica desativada em Goiânia. O equipamento foi levado para um ferro-velho, onde acabou sendo desmontado.
Dentro do cabeçote de chumbo havia uma cápsula contendo cerca de 19 gramas de Césio-137, material altamente radioativo. O pó emitia um brilho azulado no escuro, o que despertou a curiosidade de diversas pessoas que passaram a manuseá-lo e compartilhá-lo sem conhecer os riscos.
A contaminação atingiu centenas de moradores. Mais de mil pessoas passaram por monitoramento, enquanto centenas foram consideradas contaminadas pela radiação. Quatro pessoas morreram em decorrência direta da exposição: Leide das Neves Ferreira, Maria Gabriela Ferreira, Israel Batista dos Santos e Admilson Alves de Souza.
Considerado o maior acidente radiológico da história ocorrido fora de uma usina nuclear, o episódio deixou sequelas permanentes em sobreviventes e familiares, que ainda convivem com impactos físicos, psicológicos e sociais quase 40 anos depois. A morte de Lucimar das Neves Ferreira volta a colocar essa história em evidência e relembra que as consequências da tragédia ultrapassaram as vítimas, marcando gerações inteiras.

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