

A imagem que ninguém esperava ver
Por Diego Almeida - Observatório do Cinema
Existe uma cena, no primeiro O Diabo Veste Prada (2006), em que Miranda Priestly olha de cima a baixo um suéter azul e o despedaça, tirando qualquer pretensão de que moda seja coisa frívola.
É um dos monólogos mais citados do cinema dos anos 2000. Vinte anos depois, a vida real produziu o seu próprio plano-sequência impossível: Meryl Streep e Anna Wintour, fotografadas por Annie Leibovitz, dividindo a capa da edição de maio da Vogue americana.
Para quem não acompanha o assunto, vale destacar: o filme O Diabo Veste Prada é, desde sempre, baseado em Anna Wintour. O livro original foi escrito por uma ex-assistente dela. A personagem de Miranda Priestly, vivida por Meryl Streep, é uma editora de revista de moda implacável que ninguém na indústria nunca conseguiu fingir não reconhecer.
Por vinte anos, a piada era essa, e a Vogue fingia que o filme não existia. Agora, a empresa coloca Wintour e Streep juntas na capa, posando como “as duas Mirandas”, para promover a sequência.
A adaptação de 2006, dirigida por David Frankel, mostrava uma editora de revista de moda implacável, capaz de humilhar subordinados pelo prazer de manter o controle. Meryl Streep, na própria conversa publicada agora, conta que o set não conseguiu fechar parcerias de figurino porque a indústria temia represálias da editora real.
Ninguém queria emprestar peças para um filme que pudesse desagradar Wintour. O filme foi feito mesmo assim, custou US$ 35 milhões e arrecadou US$ 326 milhões mundialmente. Virou clássico, fenômeno de streaming, gerador inesgotável de memes.
Com o tempo, Wintour aprendeu a abraçar o que não pôde derrotar: tanto Meryl Streep quanto Anne Hathaway estamparam capas individuais da Vogue depois do lançamento. A relação azedou e adoçou.
A premissa do Diabo Veste Prada original era que Runway é um lugar disfuncional, glamoroso e cruel, e que olhar para esse mundo de fora, com algum distanciamento crítico, era parte do prazer do espectador. Vinte anos depois, esse distanciamento desapareceu.
A Vogue está participando ativamente da promoção de O Diabo Veste Prada 2 que foi inspirada nela própria. Quando Wintour conta, na entrevista, que soube da sequência por terceiros e ligou para Meryl Streep “porque eu sabia que ela me diria se ia ficar tudo bem”, o efeito é simultaneamente comovente e revelador.
É uma jogada brilhante de relações públicas. É também o tipo de movimento que torna mais difícil, agora, assistir ao filme sem ter Anna Wintour sentada simbolicamente na poltrona ao lado, sussurrando que tudo bem rir, desde que a gente entenda que moda é coisa séria.

O Diabo Veste Prada 2 estreia quinta-feira, 30 de maio, nos cinemas de todo o Brasil.

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