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O país da Europa que promete milhares de empregos a brasileiros e vistos que saem em 2 semanas

Internacional
Publicado em 1 de abril de 2026
O país da Europa que promete milhares de empregos a brasileiros e vistos que saem em 2 semanas
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A Finlândia, o ‘país mais feliz do mundo’, quer contratar 140 mil trabalhadores até 2035 para a área de tecnologia, e os brasileiros estão entre os principais alvos dessas vagas. Mas o que é preciso para trabalhar lá?


Pedro Martins - Da BBC News Brasil em Londres - via CB

Se todos os brasileiros que vivem na Finlândia se reunissem, não encheriam uma única arquibancada de um estádio de futebol — são, afinal, 2.611 pessoas, segundo o Ministério das Relações Exteriores. Mas, daqui a alguns anos, talvez lotem um estádio inteiro.

O governo finlandês diz que as empresas do país planejam contratar 140 mil trabalhadores até 2035 para a área de tecnologia, e os brasileiros estão entre os principais alvos dessas vagas, ao lado de indianos e vietnamitas.

Para isso, a Finlândia pretende agilizar a concessão de vistos, reduzindo o prazo de emissão para até duas semanas, caso o estrangeiro tenha uma proposta de trabalho, e negocia com o Brasil um acordo bilateral de previdência social.

Na prática, isso permitiria que os brasileiros que trabalharem na Finlândia, que lidera o ranking dos países mais felizes do mundo, mantenham o direito à aposentadoria no Brasil caso decidam retornar.

Por que a Finlândia busca brasileiros

A expectativa de preencher 140 mil vagas, com brasileiros entre os profissionais visados, se ancora em duas mudanças profundas no mercado de trabalho finlandês.

A primeira é o crescimento do setor de tecnologia no país, com o surgimento de startups ligadas a pesquisadores recém-formados e também de empresas que buscam uma alternativa ao alto custo de operação em outras partes da Europa.

A segunda é a dificuldade de contratar e manter trabalhadores da Rússia e da Ucrânia, que eram parte importante da mão de obra estrangeira na Finlândia, em razão da guerra que já dura quatro anos e não tem previsão de término.

Quem diz isso é Laura Lindemann, diretora do Work in Finland, órgão governamental voltado à promoção do mercado finlandês e à atração de estrangeiros, ao explicar por que os brasileiros passaram a ser buscados.

“Avaliamos diferentes países sob a perspectiva das empresas finlandesas e da internacionalização — onde elas estão, para onde exportam ou querem exportar — e também onde há grande oferta de profissionais”, afirma Lindemann.

“Também foi considerado o fato de a Finlândia já estar presente no país, com escritório da Business Finland, uma embaixada, ou seja, não é preciso começar tudo do zero. As conexões entre Finlândia e Brasil já existem.”

Interior de uma biblioteca moderna, com iluminação natural e grandes janelas. Há estantes baixas cheias de livros organizados, sofás e mesas onde pessoas leem, conversam ou usam dispositivos eletrônicos. À esquerda, uma pessoa está sentada dentro de uma cadeira em formato de cápsula branca, parcialmente fechada. No centro, duas pessoas caminham pelo espaço. O ambiente tem design contemporâneo, com piso de madeira, tapetes e plantas distribuídas pelo local.
Biblioteca Central de Helsinque Oodi, em Helsinque, capital da Finlândia

Mas há ainda um terceiro fator — e, talvez, o mais importante: a Finlândia depende da imigração para evitar o encolhimento populacional, afirma a executiva, amparando-se em dados do Statistics Finland, órgão que tem como seu equivalente no Brasil, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Hoje, nove em cada dez municípios finlandeses registram mais mortes do que nascimentos. “A Finlândia está envelhecendo, e não pode haver um gargalo para o crescimento do país por falta de talentos”, diz Lindemann.

“Estimamos que, nos próximos anos, 1 milhão de finlandeses vão se aposentar. É um número enorme para um país com pouco menos de 6 milhões de habitantes.”

Céu noturno iluminado por uma aurora boreal em tons vibrantes de verde e rosa, formando faixas ondulantes sobre uma paisagem coberta de neve. Silhuetas de árvores altas e esparsas se destacam em primeiro plano, enquanto estrelas pontilham o céu escuro ao fundo. Uma trilha nevada atravessa a cena, reforçando a sensação de isolamento e frio típico de regiões do norte.
Auroras boreais em Rovaniemi, na Lapônia, um dos maiores atrativos turísticos da Finlândia

As áreas e perfis mais buscados

Atualmente, há quase 800 vagas abertas, segundo o Work in Finland. A instituição reúne grande parte das oportunidades em seu portal, mas há posições oferecidas apenas nos sites das empresas — por isso, os interessados devem ampliar a busca.

As oportunidades envolvem formações em diversos campos, segundo Lindemann. “Todas as áreas das ciências naturais são necessárias — matemática, física, química —, porque são importantes para o setor de deep tech, que concentra os novos negócios na Finlândia.”

Deep tech significa que há pesquisa e, a partir dela, surgem inovações que são comercializadas. Inteligência artificial, computação quântica, semicondutores, microchips, tecnologia voltada à saúde — estamos falando desse campo”, diz a executiva.

“Empresas como a IQM, a Bluefors e a SemiQon trabalham com isso e estão se expandindo rapidamente.”

É preciso, portanto, ter interesse em pesquisa. No país, aliás, pesquisadores que estão fazendo um doutorado são tratados como profissionais e, em sua maioria, são funcionários das universidades.

“Nossas universidades e empresas trabalham muito próximas, e o setor público também atua bastante com elas, financiando a pesquisa e o desenvolvimento desses ecossistemas”, diz Lindemann.

Ela acrescenta que o setor de desenvolvimento de software, embora também seja valorizado, está em profunda transformação por causa do avanço da inteligência artificial.

“Então, nesta área, não basta ter apenas habilidades básicas. É preciso ter algo a mais.”

Todas as posições requerem domínio do inglês. Para obter um visto de trabalho, não há exigência de um nível mínimo padronizado de proficiência, como ocorre no Reino Unido, por exemplo. Mas é preciso saber se comunicar com fluidez.

Lindemann diz que o finlandês e o sueco — línguas oficiais do país, a depender da região — são diferenciais importantes, mas não obrigatórios.

Espera-se, contudo, que o profissional tenha interesse em aprender ao menos o finlandês após se mudar, principalmente se tiver interesse em assumir posições de liderança no futuro.

Mão de obra em falta, desemprego alto

Lindemann pontua que a Finlândia enfrenta uma taxa de desemprego de quase 11%, bem mais alta do que a do Brasil, por exemplo.

Mas afirma que trabalhadores estrangeiros, com competências diferentes das disponíveis localmente, podem ajudar o país a superar esses desafios.

“Especialmente em uma situação como esta, de alto desemprego, precisamos de crescimento — e é por isso que precisamos dos melhores talentos para gerá-lo”, diz a executiva.

Ela acrescenta que muitas das pessoas hoje sem trabalho não podem ser contratadas para as vagas abertas porque não atendem aos requisitos.

Com o envelhecimento da população, muitos não têm formação em áreas mais contemporâneas, como computação quântica, hoje entre as mais aquecidas no país.

“Os empregadores precisam primeiro verificar se há talentos disponíveis na Finlândia ou na União Europeia. Somente se não encontrarem ninguém é que podem contratar fora”, diz Lindemann.

“Mas, quando se trata de pesquisadores, não há esse tipo de restrição, porque essas empresas dependem essencialmente de talentos internacionais. Elas precisam dos melhores do mundo em suas áreas.”

Os benefícios de trabalhar na Finlândia

A Finlândia não espera que os brasileiros deixem seu país sem dar nada em troca, diz a diretora do Work in Finland.

Lindemann lista algumas diferenças entre os dois países no que diz respeito ao mercado de trabalho, que, em sua avaliação, proporcionam um equilíbrio mais saudável entre vida pessoal e profissional.

A começar pela jornada de trabalho, em geral de 37,5 horas semanais, contra as 44 do Brasil. Há ainda de 25 a 30 dias úteis de férias, e não 30 dias corridos — o que, na prática, significa mais descanso.

Mas talvez a maior diferença esteja na licença parental. Para as mães, é de cerca de dez meses e meio, contra quatro meses no Brasil; para os pais, são cerca de cinco meses, ante os atuais cinco dias úteis no Brasil (recentemente ampliados para 10 dias a partir do próximo ano e progressivamente ampliados até chegar a 20 dias a partir de 2029).

Por que a Finlândia é o país mais feliz do mundo

Não é raro ver um brasileiro se surpreender ao descobrir que a Finlândia está no topo do ranking dos países mais felizes do mundo, enquanto o Brasil, tão associado à alegria, hoje ocupa a 32ª posição.

É importante, diz a diretora do Work in Finland, saber o que esperar do país antes de decidir se mudar para lá.

Trata-se de um lugar frio, onde as temperaturas podem chegar a -20°C, e, no inverno, a noite pode durar quase o dia todo.

Isso acontece porque o ranking da felicidade se baseia em uma única pergunta, em que os entrevistados avaliam suas vidas com notas de zero a dez.

Eles são instigados a imaginar uma escada, em que o topo representa a melhor vida possível, e a base, a pior. Então, respondem em que degrau consideram estar hoje.

São feitos ainda questionamentos sobre liberdade e emoções, que não são usados para ordenar os países, mas para entender por que cada um ocupa determinada posição e o que puxa sua nota para cima ou para baixo.

Não é, portanto, uma pesquisa que pergunta se alguém se sente alegre ou se sorri com frequência, mas algo que busca avaliar a qualidade de vida. Em geral, são entrevistadas cerca de mil pessoas por país a cada ano.

“Um dos motivos pelos quais os brasileiros deveriam se mudar para a Finlândia é a alegria que poderiam trazer, somada à felicidade finlandesa”, diz Lindemann.

“Também temos alegria, mas seria positivo ter esse tipo de atitude diante da vida que os brasileiros têm. Seria uma combinação perfeita.”



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