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‘Pra pegar esse menino, só se for de moto’: as memórias do primeiro técnico de Vini Jr

Celebridades
COPA 2026
Esporte
Publicado em 29 de junho de 2026
‘Pra pegar esse menino, só se for de moto’: as memórias do primeiro técnico de Vini Jr
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Artilheiro da seleção chegou à Escolinha do Flamengo em São Gonçalo (RJ) com apenas 5 anos, demonstrando de cara ser ‘muito rápido no raciocínio e na execução das jogadas’, lembra Cacau Beraldini.



Júlia Dias Carneiro - Do Rio de Janeiro para a BBC News Brasil

Quando vê Vinícius Jr se consagrando como artilheiro da seleção na Copa do Mundo 2026, o técnico Cacau Beraldini reconhece a criança com quem trabalhou 20 anos atrás.

Ele enxerga a mesma garra, velocidade e personalidade que via desabrochar quando o pequeno Vini — que era muito tímido fora do jogo — entrava em campo e se soltava.

“É o mesmo menino que iniciou lá atrás. Um jogador que vai para cima do adversário, e pode errar uma primeira vez, uma segunda vez, que vai tentar de novo, com muita personalidade e velocidade”, diz Carlos Eduardo Beraldini, conhecido por todos como Cacau.

“E comemorando todos os gols com uma dancinha. Isso ele já fazia quando criança. Não é para provocar o adversário, ele adora dançar.”

Era 2006 quando Vinícius José Paixão de Oliveira Jr. — que nasceu em 12 de julho de 2000 e faz aniversário uma semana antes da final desta Copa — chegou na Escolinha do Flamengo no bairro do Mutuá, no município de São Gonçalo, região metropolitana do Rio.

Levado pelo pai, Vinicius José, ele foi recebido por Cacau e sua esposa Valéria Beraldini, que cuidam da escolinha onde cerca de 200 crianças aprendem os primeiros lances.

A família morava a 3 km dali, em um bairro pobre, Porto do Rosa. Vini já era bom de bola e passava horas brincando com a molecada na rua.

Com intervalos para empinar pipa e jogar bolinha de gude, foi ali que aprendeu “os melhores dribles”, como o craque destacou na vida adulta lembrando a infância.

Montagem mostra Vini Jr criança na escolinha de futebol

Na rua, começou a aprender cedo o domínio da bola que mais tarde o levaria ao Real Madrid, em 2018.

Eleito melhor jogador do mundo pela Fifa, em 2024, conquistou duas Champions League pelo clube — marcando gols nas finais das temporadas 2021/22 e 2023/24 — e, nesta Copa 2026, alcançou um feito histórico ao balançar as redes em todos os jogos da fase de grupos, quatro ao todo.

‘O Vini atropelava todo mundo’

Mas a chegada daquele Vini mirim à Escolinha do Flamengo impôs uma dificuldade para Cacau.

“Era muito fácil. O Vini pegava a bola e saía driblando todo mundo. Às vezes tinha até reclamação de alguns pais. Então logo botamos ele para treinar com os mais velhos”, lembra o técnico.

“Mas nem os mais velhos criavam dificuldade para ele. O Vini atropelava todo mundo.”

Dos 7 aos 10 anos, Vini se dividiu entre duas escolas de futebol, entrando também no futsal do Canto do Rio, clube centenário de Niterói.

A modalidade foi importante para que aprimorasse “dribles curtos, pensamento rápido, ações de momento”, como Vini destacou em entrevista ao site do clube ao ser contratado pelo Real Madrid.

“Na época, era muito pequeno, não pensava muito em jogar, ganhar dinheiro, essas coisas. Só queria me divertir e até hoje jogo assim.”

Um grupo de crianças usando uniforme verde. Vini Jr está na fileira de cima
Vini Jr (na segunda fileira, ao centro) ao lado dos colegas com quem treinava na escola de futebol

A partir dos 8 ou 9 anos, Cacau conta que começaram a levá-lo para competições. E aí teve certeza de que aquele menino tinha “algo bem diferente”.

“Ele era muito acima dos outros”, lembra.

“Com a bola, ele sempre demonstrava muita velocidade tanto no raciocínio quanto na execução das jogadas. Ele antevia jogadas, coisa que os outros meninos tinham mais dificuldade para fazer.”

Atletas adversários e pais de outros jogadores se admiravam. “Para pegar esse menino aí, não tem como, só se for de moto – ele é muito rápido!”, relembra Cacau.

“Passamos a ver ali uma possibilidade muito grande de ele seguir em frente com sucesso.”

Vini Jr durante um jogo
Cacau conta que Vini Jr sempre foi muito rápido com a bola e deixava os adversários pra trás

Em 2010, Vini passou no teste para o juvenil do Flamengo, vitória que inaugurou anos de périplos árduos para treinar. Era preciso atravessar a ponte Rio-Niterói e chegar até a outra ponta do Rio de Janeiro para treinar no Ninho do Urubu, centro de treinamentos do Flamengo na zona oeste, a 70km de São Gonçalo.

Cacau lembra que a mãe de Vini, Fernanda, precisava ir com o filho até a sede do Flamengo na Gávea, na zona sul do Rio, onde o atleta, que nem adolescente era ainda, pegava o ônibus do clube até o Ninho.

Ela ficava esperando horas na sede da Gávea até o filho retornar, para então pegarem o ônibus de volta para São Gonçalo.

O pai de Vini foi trabalhar em São Paulo para conseguir mais dinheiro para a família nessa época — realidade que só mudou depois que Vini começou a ganhar bem e pediu para o pai voltar para o Rio e começar a trabalhar com ele.

“A família do Vini tem uma parte muito grande no que ele é hoje. Eles se dedicaram totalmente para que o Vini pudesse treinar, tanto na escolinha quanto na base do Flamengo. Teve muito sacrifício de sua mãe e do seu pai. Sua família era muito humilde, mas muito batalhadora e trabalhadora”, lembra Cacau.

Sucesso compartilhado

Vini Jr e Cacau
Vini Jr atuou pela base do Flamengo antes de jogar no time principal

Mesmo que o sucesso começasse a levá-lo para longe, Vini se manteve fiel às raízes em São Gonçalo.

“Sempre que ganhava troféus na base do Flamengo, ele os trazia para a escola para repartir a experiência com as crianças”, lembra Cacau.

Foi assim com os primeiros troféus que ganhou atuando pela base no Flamengo; e foi assim até o Campeonato Sul-Americano sub-17, quando voltou para a escolinha em Mutuá tirando fotos e distribuindo autógrafos para as crianças.

“Era muito gratificante para todos nós ver sua evolução e seu crescimento”, diz o técnico.

Vini Jr e Cacau segurando troféus
Cacau conta que Vini Jr sempre voltou à escola de futebol para mostrar os troféus que conquistou

Mas o desempenho no Campeonato Sul-Americano, onde além de campeão, foi melhor jogador e artilheiro, chamou atenção de clubes internacionais, e o sucesso levou Vini para muito mais longe de casa.

Com apenas 17 anos, pouco tempo após entrar no time principal do Flamengo, teve a venda para o Real Madrid firmada pelo clube carioca de onde era “cria”. O valor de 45 milhões de euros foi a segunda transferência mais cara do futebol brasileiro na época.

Mas a imagem do filho ilustre ainda é marcante nos locais por onde passou em São Gonçalo. Na escolinha em Mutuá, estão expostos troféus de competições de que Vini participou, muitas fotos de seu passado, e dois banners gigantes do craque já adulto nas laterais do campo, inspirando as crianças durante os treinos.

“Para a gente é um orgulho muito grande fazer parte de uma pontinha dessa história do Vini”, diz Cacau.

Cacau e Vini Jr

Na Escola Municipal Paulo Reglus Neves Freire, onde Vini estudou na infância, o craque se faz presente com as ações do Instituto Vini Jr., ONG que desenvolve ações voltadas para a educação por meio da tecnologia e do esporte e busca combater o racismo.

No centro de São Gonçalo, um mural de quase 8 metros de altura com a imagem de Vini levando a mão direita ao peito em agradecimento simboliza sua importância para o município. Foi pintado pelo grafiteiro gonçalense Siri do Muro, nome artístico de Vinícius Medeiros, após Vini ser eleito melhor jogador do mundo pela Fifa, em 2024.

“O Vini é um símbolo aqui na cidade. Ele fez a gente olhar para dentro de nós e entender que nada é impossível. Com dedicação e foco, é possível alcançar um sonho”, afirma o grafiteiro.

Ao lado do mural, o orgulho está estampado em letras garrafais: “Nosso cria de São Gonça! É o melhor do mundo! Vini Jr.”

Imagem de  Vini Jr usando a camisa do Real Madri pintada em um muro de São Gonçalo
Pintura feita em São Gonçalo em homenagem a Vini Jr

O sonho na escolinha não é apenas com o hexacampeonato. É “chegar à final e vencer com gols do Vini”, diz Cacau. “Seria fantástico!”

E então, quem sabe, o filho ilustre possa fazer mais uma visita para compartilhar um certo troféu e distribuir autógrafos em São Gonçalo. “Vamos esperar o Vini aqui, se Deus quiser, se ele conseguir trazer esse hexa. A gente o espera sempre de portas abertas, ele sabe muito bem disso. Sabe o carinho que todos nós temos por ele aqui.”

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