

El Niño deve continuar influenciando o clima brasileiro ao longo do mês e ajudar a moldar um cenário de eventos extremos pelo país.
Pedro Martins - Da BBC News Brasil em São Paulo
O El Niño, fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico na faixa equatorial, deve continuar influenciando o clima brasileiro ao longo de agosto e ajudar a moldar um cenário de eventos extremos pelo país, segundo meteorologistas ouvidos pela BBC News Brasil.
A expectativa é de temperaturas acima da média em praticamente todo o país, mas com efeitos diferentes de uma região para outra.
No Sul, o fenômeno aumenta a probabilidade de chuvas intensas e temporais, com risco de ventos fortes, granizo e alagamentos. No Sudeste e no Centro-Oeste, a previsão é de calor acima do normal e baixa umidade do ar. Já no Norte e no Nordeste, a tendência é de menos chuva, favorecendo o avanço das queimadas.
Mas o calor não deve impedir a chegada de massas de ar polar. Uma nova onda de frio deve atingir o Sul, o Sudeste e parte do Centro do país por volta do dia 11, afirma o meteorologista Franco de Assis Diniz, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Depois disso, a segunda quinzena deve voltar a registrar temperaturas acima da média.
O El Niño, que se configurou em junho, deve permanecer ativo até o início de 2027 e atingir seu pico entre outubro e novembro, afirma Diogo Arsego, meteorologista do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), ligado ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Em agosto, o fenômeno deve manter uma de suas principais características no Brasil: favorecer chuvas acima da média no Sul.
Segundo Gustavo Verardo, meteorologista da Climatempo, isso ocorre porque o aquecimento das águas do Pacífico altera a circulação da atmosfera sobre a América do Sul, levando mais umidade para o Sul do país e criando um ambiente propício à formação de temporais.
Leia a seguir as previsões do tempo para o mês de agosto em cada região do Brasil.

A previsão para agosto vem na esteira de um mês turbulento no Rio Grande do Sul. Julho foi marcado por sucessivos temporais com ventos fortes, chuva intensa e granizo, que deixaram um rastro de destruição em diferentes regiões do Estado.
No início do mês, um vendaval acompanhado de granizo atingiu Eldorado do Sul, na região metropolitana de Porto Alegre, destruindo dez casas, destelhando outras 180 e deixando 720 pessoas desabrigadas, segundo a Defesa Civil municipal.
Entre os dias 17 e 20, uma nova rodada de temporais afetou 49 municípios gaúchos, provocou destelhamentos, derrubou árvores e postes e deixou ao menos 19 pessoas desalojadas, de acordo com a Defesa Civil estadual. No fim do mês, por fim, um tornado atingiu a região noroeste do Estado e deixou quatro feridos.
Para agosto, a expectativa é que a região continue sob influência de uma atmosfera instável, favorável à ocorrência de eventos extremos, segundo Diniz, do Inmet. No próximo fim de semana, a formação de um ciclone extratropical entre Rio Grande do Sul, Argentina e Uruguai deve provocar rajadas de vento de até 95 km/h.
“Não deixa de ser também uma contribuição do El Niño para estar causando esse forte contraste de temperatura e um ciclone mais intenso”, afirma o meteorologista.
Além desse sistema, novas áreas de instabilidade devem favorecer episódios de chuva intensa entre Rio Grande do Sul e Santa Catarina nas próximas semanas, com possibilidade de geada em algumas regiões, ressalta Arsego, do CPTEC.
“Ainda não conseguimos precisar a intensidade, as regiões que serão mais atingidas e as datas mais prováveis. Isso só acompanhando a previsão de tempo em uma menor escala de tempo”, diz ele.
“Hoje não é possível afirmar se teremos outros tornados no Sul, mas a gente tem uma atmosfera muito instável, e não se descartam novos eventos graves”, acrescenta Verardo, do Climatempo.

Os riscos já aparecem nos boletins oficiais de monitoramento. Em previsão divulgada na terça-feira (04/08), o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) classificou como alto o risco de continuidade das inundações na região de Uruguaiana, na fronteira com a Argentina, devido à propagação da onda de cheia na bacia do rio Uruguai.
O órgão também apontou risco moderado de alagamentos na região de Porto Alegre, onde a combinação entre o solo encharcado pelas chuvas das últimas semanas e a previsão de novas precipitações pode provocar o transbordamento de córregos e alagamentos em áreas baixas.
No Sudeste e no Centro-Oeste, a tendência é de temperaturas acima da média durante agosto, especialmente na segunda quinzena do mês.
Diniz, do Inmet, afirma que uma onda de ar frio prevista para o próximo fim de semana deve provocar uma queda temporária das temperaturas, mas não muda a perspectiva de um mês mais quente.
Embora agosto seja tradicionalmente um período seco, há possibilidade de chuva em partes do Estado de São Paulo, acrescenta Verardo, do Climatempo.
No Centro-Oeste, especialmente em Mato Grosso, Goiás e Distrito Federal, a expectativa é de dias muito quentes, acompanhados de baixa umidade do ar.
No Norte e em parte do Nordeste, a tendência é de menos chuva. “Isso pode trazer um problema especialmente associado às queimadas”, afirma Arsego, do CPTEC, observando que boa parte do Nordeste já atravessa, naturalmente, um período seco nesta época do ano.
Verardo, do Climatempo, faz coro ao afirmar que as duas regiões devem registrar condições típicas de agosto. “Dias mais quentes e focos de queimadas devem ganhar força, especificamente entre o norte de Minas Gerais, Goiás, sul da Bahia, Tocantins e Pará”, ele prevê.
Há, porém, áreas do litoral que seguem sob atenção para chuvas intensas. Em boletim divulgado nesta terça-feira, o Cemaden classificou como moderado o risco de eventos hidrológicos nas regiões de Maceió, Recife, João Pessoa e Natal.
Segundo o órgão, pancadas de chuva podem provocar alagamentos urbanos e o transbordamento de córregos, especialmente em áreas densamente ocupadas.
O Cemaden também apontou risco geológico moderado para áreas de Alagoas, Pernambuco e Paraíba. Segundo o boletim, o solo já úmido e a previsão de novas chuvas podem favorecer deslizamentos pontuais em encostas urbanas.

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