

Trajetória do craque brasileiro é relembrada em três episódios, que abordam a infância humilde, a carreira de sucesso, o carinho por BH e prisão no Paraguai
Por Mariana Peixoto - Estado de Minas
A câmera acompanha Ronaldinho Gaúcho na sala onde ele guarda troféus e medalhas. Entre eles, algumas Bolas de Ouro e outras de prata. Cinco ao todo. Alguém sugere uma foto. O próprio, carismático que só, se sai com essa, aos risos: “Vou fazer que nem aquela das bundas”.
Não há como esquecer o craque na fotografia que rodou mundo no início de 2014. Em pé, de sunga branca, na piscina de sua casa em condomínio de Lagoa Santa, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, o então meia do Clube Atlético Mineiro posou com cinco mulheres que mostravam apenas o traseiro.
Ainda que seja aberta com essa referência ao lado fanfarrão, a minissérie “Ronaldinho Gaúcho”, que estreia nesta quinta-feira (16/4), na Netflix, tem foco no futebolista duas vezes eleito o melhor do mundo pela Fifa. O jogador mais habilidoso que Galvão Bueno conheceu. O colega que entregou de bandeja ao jovem Messi o passe para que o argentino fizesse seu primeiro gol no Barcelona.
Os dois se juntam a outros célebres nomes do futebol – Neymar, Felipão, Roberto Carlos, Gilberto Silva e Carles Puyol – para falar de uma carreira de glórias. Há polêmicas também, pois não faltam descaminhos na trajetória do jogador alegre como ninguém, com habilidade única para fazer o impossível com a bola.
“O Ronaldinho é um cara muito tímido. Ele fala o que tem para falar, é um cara superinteligente, que pensa com a mesma velocidade de quando jogava futebol. Para nós, foi um desafio gerar confiança para que ficasse à vontade, esquecesse as câmeras e se concentrasse só na conversa”, afirma o diretor Luis Ara.
Uruguaio com franca produção voltada para o futebol, Ara dirigiu documentários sobre a tragédia do Chapecoense, o goleiro colombiano Higuita e o penta brasileiro de 2002. Em 7 de maio, vai lançar, também na Netflix, “Tetra: Acreditar de novo”, sobre a vitoriosa campanha do Brasil na Copa de 1994.

“Ronaldinho Gaúcho” tem três episódios: “Eu tinha um sonho”, que mostra o início da carreira e a vida em família, em Porto Alegre; “O melhor do mundo”, com a trajetória na Europa, no Paris Saint-Germain, no Barcelona, quando viveu seu auge, e no Milan; e “Disseram que eu estava acabado?”, com o final da carreira no futebol.
Hoje com 46 anos, o “Bruxo” se aposentou oficialmente em 2018, aos 37, mas a última partida profissional ocorreu em setembro de 2015, pelo Fluminense. A capital mineira é o centro do último episódio. “Quero voltar para Belo Horizonte”, foi o que Ronaldinho disse a Ara durante a realização da série.
“Já tínhamos o projeto quase fechado, mas ele tinha de ir para aí em outubro. Aceitamos filmar o momento em que ele ingressa no estádio, porque falou muitas vezes: ‘Fui muito feliz nesta cidade. O carinho que recebi em Minas Gerais, em Belo Horizonte, no Atlético Mineiro, foi enorme, um dos maiores que recebi em toda a carreira’”, conta o diretor.

O período 2012-2014, quando o Galo conquistou a Libertadores (2013), é relembrado por ele, pelo artilheiro Jô e o então presidente do time, Alexandre Kalil. O ex-cartola fala com a boca cheia do “time de renegados” que garantiu a glória ao alvinegro.
A série também destaca a emoção de Ronaldinho Gaúcho diante da torcida atleticana, que o apoiou sobremaneira quando sua mãe, dona Miguelina, passava por um tratamento de câncer.

A equipe esteve com Ronaldinho em vários lugares. Houve quatro entrevistas com set montado, a principal delas na fazenda que ele tem no Rio Grande do Sul, lugar que considera sua casa.
Referência na cobertura esportiva europeia, a jornalista espanhola Cristina Cubero acompanhou, de perto, a vitoriosa (e polêmica) carreira no Barcelona. Comenta com gosto quando soube por que ele assistia a tanto basquete: copiava, em campo, os passos dos jogadores da NBA. “Ronaldinho foge de conflitos”, Cristina destaca em dado momento.
“Ele falou tudo o que tinha que falar. Talvez com algumas poucas palavras, porque ele é assim. Acho que o valor da série é tudo o que você assiste ser verdade. Talvez o Assis fale com um pouco mais de profundidade”, afirma Ara quando perguntado se Ronaldinho chegou a fugir de algumas questões.
Quando o craque não vai a fundo nos temas (mas responde a tudo, na maioria das vezes sorrindo), são os irmãos, Deisi e Roberto de Assis Moreira, que dão as respostas completas. Em especial Assis, empresário do jogador desde sempre.
A morte do pai foi trágica: João de Assis Moreira sofreu um ataque cardíaco na piscina da casa recém-adquirida pelo primogênito, na época jogador do Grêmio. Ronaldinho tinha 8 anos, lembra-se pouco dele. Considera Assis como pai.

O irmão mais velho chama para si a culpa do pior momento da vida do jogador. Em 2020, os dois ficaram sob custódia por cinco meses no Paraguai após entrarem no país vizinho com passaportes falsificados. O caso voltou à tona no início deste mês com a prisão da empresária paraguaia Dalia López, apontada como fornecedora dos documentos.
No centro de detenção Agrupación Especializada, onde passou 32 dias, Ronaldinho tentou esquecer o pesadelo fazendo o que mais ama. Seu time venceu de lavada, 11 a 2, uma partida de futsal. “Fui campeão aí também”, Ronaldinho diz na série. Rindo, sempre, e encerrando o assunto.
O rei do rolê aleatório é porção pouco explorada na série, assim como o lado empresário. Depois do selo de trap e funk Tropa do Bruxo, na ativa há cinco anos, Ronaldinho lançou, neste mês, o Tu Musica.
Com sede em Miami, a gravadora tem como primeiro lançamento um álbum inspirado na Copa do Mundo, com artistas de todo o planeta.
• A série, com três episódios, estreia nesta quinta-feira (16/4), na Netflix

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