

Num cenário que aponta para crise das brincadeiras tradicionais, Toy Story 5 mostra a insurreição dos bonecos animados contra o entretenimento virtual
Por Ricardo Daehn - Correio Braziliense
Toy Story 5 chega com uma trama desconcertante: os bonecos animados se rebelam contra o vazio do entretenimento virtual e reivindicam a dimensão do lúdico. O filme deve suscitar muito debate no momento em que as crianças estão hipnotizadas pelas imagens do mundo virtual. A arte da animação entra como espaço de resistência cultural e de reflexão sobre a relação das crianças com as máquinas da informação.
Tendo por norte a jornada da personagem Jessie, uma boneca vaqueira em crise em Toy Story 5, a cantora Taylor Swift contou, em entrevista à rede ABC, da inspiração para a composição I knew it, I knew you, contribuição dela ao longa dirigido por McKenna Harris e Andrew Stanton.
“Nós vimos Jessie passar por tanta dor e tantos triunfos, e perdas, e conhecemos sua história”, ao que completou: “Mas, no novo filme, vemos um desenvolvimento de personagem tão grande e, na verdade, lições com as quais eu me identifiquei à medida em que ela cresceu e aprendeu mais sobre suas experiências e suas memórias”. Toy Story 5 é o destaque nas estreias da semana.
Ao remexer em lembranças, no fundo de gaveta, o astro Tom Hanks — que na trama dubla o longevo personagem Woody — refletiu para o inglês The Guardian sobre a infância, tendo por pano de fundo os brinquedos à palma de sua mão: “Um dos melhores brinquedos que já tive foi um helicóptero, que era basicamente um bumerangue. Se você o jogasse do jeito certo e contra o vento ele voltava direto para você… Nunca mais o vi”. Mais empolgada com a lida de objetos e brinquedos do que com o relacionamento amistoso com humanos, é a pequena Bonnie, uma menina introspectiva, quem move parte da trama do filme.
É o destino de Bonnie que entra em jogo, quando Jessie (outrora uma exigida boneca) observa a apatia das crianças por demais entretidas com jogos e dinâmicas virtuais (“sem fazer nada”), num mundo nutrido pelo controle de tela e por outras implicações éticas.
Atriz que dá voz à personagem alinhada ao entretenimento de tablet e afins, Greta Lee (Lilypad, na trama) comentou à imprensa inglesa da própria experiência junto ao controle dos filhos: “Estabelecemos um limite bem claro sobre quanto tempo é aceitável e quando e onde jogar é apropriado. E também damos um passo para trás, e nos concentramos novamente, com prioridade, em coisas como gastar tempo ao ar livre e metidos na natureza. Caminhadas, jardinagem e todas aquelas coisas boas e antigas que ainda são tão divertidas para as crianças”.
Tim Allen, no The Guardian destacou a empatia que o filme provoca na plateia, independentemente da idade. “Na estreia, vi a mesma expressão nos rostos de três gerações diferentes”, avaliou.
Entre a proibição do uso de redes sociais por jovens, alta voltagem de bullying, disputas de posto de brinquedos convencionais (vistos como “antiguidades”) e estímulo a aspectos lúdicos, o cerne de Toy Story 5 pode impactar. “Independentemente de o filme mudar ou não as coisas, ele vai gerar discussões. Veremos o quão popular será a ideia da nossa narrativa”, pontuou Hanks, em entrevista no exterior. Contra o brincar “de verdade”, algo às vias de extinção, entram o poder dos chats, upgrades e do lazer virtual.

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