

Prorrogação da campanha para jovens de 15 a 19 anos até 31 de dezembro amplia o acesso e reforça a prevenção de cânceres
Por Alícia Bernardes e Rafaela Bomfim* - Correio Braziliense
A prorrogação da vacinação contra o papilomavírus humano (HPV) para adolescentes e jovens de 15 a 19 anos até 31 de dezembro abre uma nova oportunidade para ampliar a proteção contra um dos vírus mais associados ao desenvolvimento de diferentes tipos de câncer.
A estratégia do Ministério da Saúde busca alcançar quem não recebeu a dose na idade recomendada, ampliar a cobertura vacinal e reduzir a circulação do vírus, prevenindo doenças que podem se manifestar anos após a infecção.
Desde o início da estratégia, aproximadamente 287 mil doses foram aplicadas nesse público, sendo 124.172 em meninas e 163.502 em meninos. A campanha integra o esforço do governo federal para recuperar as coberturas vacinais e ampliar o acesso ao imunizante, oferecido gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
O HPV é uma das infecções sexualmente transmissíveis mais frequentes no mundo. No Brasil, estima-se que entre 9 milhões e 10 milhões de pessoas estejam infectadas, enquanto cerca de 700 mil novos casos são registrados a cada ano. “A vacinação contra o HPV é a principal forma de prevenção, complementada pelo uso de preservativos internos ou externos, que reduzem o risco de transmissão”, destaca o Ministério da Saúde.
A transmissão ocorre principalmente por contato sexual vaginal, anal ou oral, mas também pode acontecer pelo contato direto entre pele e mucosas, mesmo sem penetração, quando há lesões na região genital. Em situações mais raras, o vírus pode ser transmitido da mãe para o bebê durante a gestação ou o parto.
Embora a maioria das infecções seja eliminada naturalmente pelo organismo, uma parcela dos casos persiste e pode provocar verrugas genitais ou evoluir para lesões pré- cancerígenas. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), praticamente todos os casos de câncer do colo do útero estão relacionados à infecção persistente pelo HPV. O vírus também está associado aos cânceres de ânus, pênis, vulva, vagina, boca e orofaringe.
Especialistas destacam que a vacinação antes do início da vida sexual oferece a maior proteção, pois impede que o organismo tenha contato com os tipos de HPV mais perigosos. Estudos mostram que a resposta imunológica em crianças e adolescentes entre 9 e 14 anos é significativamente superior à observada em adultos, tornando a imunização precoce uma das estratégias mais eficazes para prevenir a doença.
No SUS, a vacina quadrivalente protege contra os tipos 6 e 11, responsáveis pela maior parte das verrugas genitais, além dos tipos 16 e 18, relacionados à maioria dos casos de câncer do colo do útero. Já a vacina nonavalente, disponível na rede privada, amplia a proteção para nove tipos do vírus e pode prevenir até 90% dos casos desse câncer.
Desde abril de 2024, o Brasil passou a adotar o esquema de dose única para adolescentes de 9 a 14 anos, seguindo recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas). Atualmente, a cobertura vacinal supera 82% entre as meninas e chega a cerca de 67% entre os meninos dessa faixa etária. A meta do Ministério da Saúde é alcançar 90% de cobertura.
Para o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, ampliar a vacinação significa evitar que milhares de brasileiros desenvolvam doenças que poderiam ser prevenidas. Ele ressalta que o governo tem como objetivo vacinar 90% das meninas e lembra que a estratégia conta com a capilaridade da Atenção Primária. “Nenhuma mulher deveria temer uma doença evitável. Por isso, nossa meta é vacinar 90% das meninas”, enfatiza.
Segundo o ministro, a rede de mais de 38 mil salas de vacinação funciona como o “fio-condutor” da política de prevenção. “Em cada uma dessas salas, nossos profissionais acolhem, vacinam, testam e acompanham as pacientes ao longo de toda a linha de cuidado”, diz.
Além dos adolescentes de 9 a 14 anos e da faixa temporariamente ampliada até os 19 anos, têm direito à vacina pelo SUS pessoas que vivem com HIV, transplantados, pacientes oncológicos, usuários da profilaxia pré-exposição ao HIV (PrEP) e vítimas de violência sexual, conforme os critérios do Ministério da Saúde.
Apesar da elevada eficácia do imunizante, a vacina não substitui outras formas de prevenção. O Ministério da Saúde reforça que mulheres entre 25 e 64 anos devem manter a realização periódica do exame de Papanicolau, responsável por identificar alterações antes do desenvolvimento do câncer do colo do útero.
O uso de preservativos também continua sendo recomendado, pois reduz o risco de transmissão do HPV e protege contra outras infecções sexualmente transmissíveis, embora não elimine completamente a possibilidade de contágio pelo vírus.
Quando já existem lesões causadas pelo HPV, o tratamento pode envolver medicamentos, procedimentos cirúrgicos ou terapias imunológicas para remover as alterações. No entanto, essas intervenções não eliminam totalmente o vírus do organismo, tornando indispensável o acompanhamento médico para monitorar possíveis recorrências.
A estudante Luana dos Santos, de 26 anos, faz parte da geração que teve acesso à vacina contra o HPV ainda na escola, durante as primeiras campanhas de imunização em larga escala no país. Ela lembra que a aplicação das doses foi acompanhada por ações educativas e palestras voltadas aos estudantes, que explicavam o que era o vírus, como ocorria a transmissão e a importância da vacinação para prevenir doenças no futuro. Segundo ela, esse trabalho de conscientização contribuiu para que a imunização fosse encarada com naturalidade e segurança entre os alunos.
“Eu me lembro de tomar a vacina quando estava no ensino fundamental. Os profissionais de saúde foram até a escola, explicaram para a gente o que era o HPV, como ele podia causar doenças graves e por que era importante tomar a vacina antes da vida adulta. Na época, muita gente nem conhecia o vírus, então essa conversa fez toda a diferença”, recorda.
Hoje, já maior de idade, Luana afirma compreender ainda mais o impacto daquela decisão. “Quando a gente é criança ou adolescente, muitas vezes não entende por que está sendo vacinado. Só depois percebemos que é uma proteção para o futuro. Saber que existe uma vacina capaz de prevenir vários tipos de câncer é algo muito importante”, conta.
Para ela, a ampliação temporária da campanha pode beneficiar milhares de jovens que perderam a oportunidade de se vacinar na idade indicada. “Muita gente acaba deixando passar por falta de informação ou porque não conseguiu ir ao posto. Essa prorrogação dá uma segunda chance. Quanto mais pessoas vacinadas, maior é a proteção para toda a população.”
A estudante também defende que as ações de vacinação sejam acompanhadas de informação nas escolas e nas redes sociais. “Quando os jovens entendem o motivo da vacina, eles deixam de enxergar isso como uma obrigação e passam a ver como um cuidado com a própria saúde. Informação e vacinação precisam caminhar juntas para que a gente consiga prevenir doenças que podem aparecer muitos anos depois.”
*Estagiária sob a supervisão de Rafaela Gonçalves

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