Rede Clube FM

Musculação ativa mecanismos de queima de gordura em 7 dias, diz estudo

Estudo da Unicamp com camundongos obesos identificou mudanças no tecido adiposo antes de qualquer perda de peso

Musculação ativa mecanismos de queima de gordura em 7 dias, diz estudo
Os pesquisadores trabalharam com camundongos machos. Um grupo recebeu alimentação padrão, enquanto outro foi submetido a uma dieta rica em gordura para induzir a obesidade. - (crédito: Magnific )

Por Redação Clube FM - Brasília

- Atualizado

Por Amanda S. Feitoza

Sete dias de treinamento de força foram suficientes para provocar mudanças no tecido adiposo de camundongos obesos, mesmo sem redução do peso corporal.

Em experimento conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), os animais que fizeram musculação apresentaram menor quantidade de gordura ao redor do intestino e células de gordura menores, além da ativação de mecanismos ligados à quebra da gordura.

O estudo foi publicado na revista Life Sciences e recebeu apoio da FAPESP. A pesquisa faz parte de uma linha de investigação da Unicamp que há quase duas décadas analisa como a atividade física interfere em condições como obesidade e diabetes.

Com técnicas de análise molecular, o grupo passou a investigar também alterações que ocorrem dentro das células antes de mudanças visíveis, como perda de peso ou ganho de massa muscular.


"A gente sempre ouviu falar que fazer exercício físico queima gordura e emagrece. Mas poucas vezes paramos para pensar como isso acontece, quanto tempo de exercício é necessário e o que significa essa queima de gordura”, afirma Leandro Moura, professor da Unicamp, médico e profissional de educação física, autor do estudo e coordenador do Exercise Cell Biology Lab (Ecebil) a Agência FAPESP.

Como foi o experimento

Os pesquisadores trabalharam com camundongos machos. Um grupo recebeu alimentação padrão, enquanto outro foi submetido a uma dieta rica em gordura para induzir a obesidade.

Depois, os animais obesos foram divididos entre um grupo sedentário e outro que passou pelo treinamento de força.

A dieta rica em gordura continuou durante o período de exercícios. Dessa forma, os pesquisadores conseguiram comparar os animais obesos que permaneceram sedentários com aqueles que fizeram musculação, sem alterar a alimentação entre os grupos.

Para reproduzir um esforço semelhante ao treinamento de força, os camundongos precisavam subir uma escada de 70 centímetros carregando uma carga presa à cauda. As sessões utilizaram 70% da capacidade máxima dos animais, com 20 subidas e intervalos de 60 a 90 segundos. Ao todo, foram sete sessões.

O foco da pesquisa foi o tecido adiposo mesentérico, localizado ao redor dos intestinos. Nos seres humanos, essa região é considerada representativa da gordura visceral, que fica no interior do abdômen, entre os órgãos. Segundo o pesquisador, o excesso desse tipo de gordura está associado à liberação de substâncias inflamatórias na circulação e a alterações no metabolismo.

Mudanças antes da balança

A escolha de analisar os animais depois de apenas sete dias foi intencional. Os pesquisadores queriam identificar os efeitos provocados diretamente pelo exercício antes que uma eventual perda de peso pudesse interferir nos resultados. “Quando conseguimos manter o mesmo peso corporal e observamos o que aconteceu no organismo, podemos isolar diretamente o que o exercício físico favoreceu antes do emagrecimento”, explica Moura.

Mesmo sem redução do peso corporal total, os camundongos que fizeram treinamento apresentaram menor massa de tecido adiposo mesentérico do que os animais obesos sedentários. As células que armazenam gordura, chamadas adipócitos, também eram menores.

O tamanho dessas células está relacionado à saúde metabólica. Em animais obesos, o aumento dos adipócitos pode estar associado a estresse e à liberação de substâncias inflamatórias. No experimento, a redução do tamanho das células ocorreu antes de qualquer alteração na balança.“Obviamente, não dá para reproduzir os mesmos exercícios de musculação feitos por uma pessoa, mas conseguimos provocar no organismo um esforço semelhante ao da musculação, com uma contração mais intensa, mimetizando bem uma sessão de musculação para humanos”, explica Moura.

O que aconteceu dentro das células

A equipe também investigou os mecanismos responsáveis pela quebra da gordura, processo chamado de lipólise. Nos camundongos obesos, a obesidade havia prejudicado a atuação de proteínas envolvidas nesse processo. Depois das sete sessões de treinamento, parte desse mecanismo foi reativada.

Entre as proteínas analisadas estavam PLIN1, ABHD5 e ATGL. De maneira simplificada, elas participam de uma sequência que permite liberar e quebrar a gordura armazenada nos adipócitos para que ela possa ser utilizada como fonte de energia.

O estudo também identificou redução na expressão do gene Scd1, relacionado à produção de gordura. Os resultados sugerem, portanto, uma mudança no equilíbrio entre mecanismos associados ao armazenamento e à quebra de gordura.

Nos animais obesos sedentários, os níveis de ABHD5 estavam reduzidos. Com o treinamento de força, aumentou a interação entre ABHD5 e ATGL, além da ativação de outros marcadores relacionados à lipólise. “Muita gente tem uma ideia de que fez musculação por dois meses, não emagreceu e, portanto, não adiantou nada. Mas o que vimos nesse estudo é que, com apenas sete dias de treinamento de força, mesmo quando ainda não havia perda de peso, vias moleculares que favorecem o acúmulo de gordura estavam menos ativas, enquanto aquelas que estimulam a quebra estavam mais ativas”, comenta Moura.

Os resultados também questionam a ideia de que a musculação teria como principal função o aumento de massa muscular, enquanto o exercício aeróbico seria o responsável pela perda de gordura. Para o pesquisador, as duas modalidades produzem respostas metabólicas que podem se complementar. “Os dois tipos de exercício ativam vias semelhantes, em intensidades diferentes, e também vias diferentes. Por isso, a associação dos dois continua sendo a melhor recomendação e a melhor estratégia para quem quer emagrecer”, afirma Moura.

Resultado ainda não pode ser aplicado diretamente a humanos

Apesar dos resultados, o estudo não permite afirmar que sete dias de musculação terão o mesmo efeito em pessoas. O experimento foi realizado exclusivamente com camundongos machos, avaliou apenas um depósito de gordura e analisou genes, proteínas e sinais moleculares relacionados à quebra de gordura.

A equipe pretende agora acompanhar períodos mais longos de treinamento para entender como essas alterações evoluem quando a perda de peso começa a ocorrer. Os pesquisadores também estudam os efeitos do exercício sobre outros depósitos de gordura, inclusive o tecido localizado ao redor do coração.

Para Moura, os resultados ajudam a explicar por que a ausência de mudanças imediatas na balança não significa que o organismo não esteja respondendo ao exercício. “Mesmo que a gente não esteja vendo nada ainda a olho nu, metabolicamente, lá dentro do nosso organismo, várias sinalizações benéficas para a saúde, inclusive para o emagrecimento, estão acontecendo. Por isso não devemos nos desencorajar diante da falta de resultados visíveis após um curto período de musculação”, conclui o pesquisador.


Baixe o App da Clube e fique por dentro de tudo, o tempo todo.

O aplicativo de rádio mais legal da internet. Acompanhe a sua Clube em qualquer lugar!

Baixar na App StoreDisponível no Google Play
App Clube FM

Clube Maníacos

Cadastre-se e concorra diariamente ao Kit Clube Maníaco com camiseta, boné, garrafinha e caneca.

Ao se cadastrar você concorda em receber nossos e-mails com novidades, conforme a nossa política de privacidade.

CLUBE FM105.5 FM