

Pesquisadores italianos constataram declínio no desempenho em testes cognitivos de crianças que usam os aplicativos muito cedo, entre os 10 e 11 anos.
Por Paloma Oliveto - Correio Braziliense
Crianças que utilizam redes sociais muito cedo — entre os 10 e 11 anos — têm pior desempenho em testes cognitivos escolares, diz um estudo publicado na revista Nature Human Behaviour. Os pesquisadores da Universidade Milão-Bicocca, na Itália, analisaram dados de 5.227 estudantes italianos, e acreditam que as diferenças encontradas podem ser atribuídas ao uso excessivo desses aplicativos, que deslocam a atenção dos estudos para as telas.
Embora pesquisas anteriores tenham sugerido que as redes sociais podem influenciar o bem-estar dos adolescentes, os efeitos sobre o aprendizado ainda não estão claros, argumenta Marco Gui, pesquisador do Departamento de Sociologia da instituição e um dos autores do estudo. Ele e a equipe analisaram dados sobre hábitos em mídias sociais — incluindo o uso do Facebook, Instagram e TikTok — coletados entre 2023 e 2024, juntamente com registros de testes padronizados de italiano, inglês e matemática de alunos de 28 escolas do norte da Itália.
Em comparação com os alunos que criaram uma conta em redes sociais no 9º ano (14-15 anos) ou posteriormente, aqueles que se inscreveram durante o 6º ano (11-12 anos) obtiveram pontuações mais baixas em italiano e matemática. A diferença equivale a um deficit de seis meses na escolaridade.
Impacto negativo
No 10º ano (15-16 anos), a diferença nas pontuações dos testes permaneceu em italiano e aumentou em matemática. O estudo não encontrou evidências de notas mais baixas em inglês. Análises adicionais indicaram que os alunos que relataram verificar seus celulares com mais frequência tinham maior probabilidade de ter aberto uma conta em redes sociais mais cedo e tendiam a ter pontuações piores nas provas escolares. Os autores afirmaram, em nota, que, embora o estudo seja observacional, “a análise fornece evidências robustas de um efeito negativo do uso precoce de mídias sociais nas notas”.
No Brasil, um levantamento da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) mostrou que 93% das crianças e adolescentes de 9 a 17 anos usam a internet, sendo que 83% têm contas em plataformas como Instagram e TikTok. Sessenta por cento dos meninos e meninas de 9 a 10 anos são ativos nesses aplicativos.
Segundo a psicóloga Ana Beatriz Sahium, de Goiânia, as plataformas conquistam os pequenos porque o tipo de conteúdo, como vídeos rápidos, libera dopamina, um neurotransmissor associado ao prazer. “As crianças e os adolescentes são mais vulneráveis pelo processo do prazer em um cérebro imaturo. Nós, adultos, conseguimos fazer a mediação, dividir tarefas e saber exatamente a hora que eu posso ter o prazer ali na tela e a hora que eu preciso das minhas obrigações. A criança fica mais vulnerável porque o cérebro imaturo vai querer sempre buscar mais”, explica.

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