

Cinquenta das 257 bolas na rede do torneio saíram de pênaltis, escanteios, faltas diretas ou alçadas e cobranças de lateral. Ineficiência no quesito incomoda Ancelotti e gera preocupação contra a Noruega
Marcos Paulo Lima e Victor Parrini — Enviados especiais - Correio Braziliense
Nova Jersey — Do muro do Centro de Treinamento do Red Bulls New York para dentro há um treino invisível. Começa por volta do 20º minuto da atividade, quando a mídia esvazia totalmente a beira do gramado para o trabalho privativo de Carlo Ancelotti. Um dos assistentes do italiano tem uma missão: Francesco Mauri ensaia a exaustão cobranças de escanteios, de faltas e até o inovador latereio — o arremesso da bola com as mãos para dentro da área. Persistente, o Brasil ainda não encaixou gol de “bola parada” em quatro exibições na Copa do Mundo. Os nove tiveram tramas com ela em movimento.
Um contrassenso. Até os jogos de ontem, a edição disputada no Canadá, no México e nos Estados Unidos contabilizava 50 gols originados de bola parada. A estatística da Fifa considera pênaltis, escanteios, faltas diretas, faltas alçadas e cobranças de lateral que resultam diretamente em gol. Eles representam 25% dos gols nesta edição, um índice muito próximo da média histórica recente das Copas, embora abaixo do recorde de 2018, quando cerca de 43% dos gols nasceram justamente nesse estilo.
A boa notícia é a independência do Brasil do recurso. Os gols nasceram da qualidade técnica, da velocidade, das combinações ofensivas, do talento individual e dos improvisos. Ao mesmo tempo, a Seleção expõe uma carência perigosa na eliminatória, quando os espaços diminuem e a demanda por repertório aumenta.
Os escanteios, por exemplo, voltaram a ser uma arma importante, principalmente para Inglaterra, Noruega, adversária do Brasil, e Alemanha. Os ingleses repetem essa característica desde a Copa de 2018. O jogo aéreo e as cobranças de corner são uma das principais armas do time de Thomas Tuchel. Os noruegueses combinam o poder físico dos zagueiros e de Haaland para transformar cruzamentos em pressão.
O Brasil teve 22 escanteios a favor nesta Copa. A média é de 5,5 por jogo. Todas as tentativas de cobranças abertas, fechadas ou ensaiadas foram frustradas pelos sistemas defensivos de Marrocos, Haiti, Escócia e Japão. Na Era Digital, parece que todos os movimentos ofensivos foram meticulosamente escaneados pelos adversários. Cada movimento dos zagueiros Marquinhos, Gabriel Magalhães e de Casemiro, os três mais procurados nas tentativas, está rastreado pelos observadores.
A trupe de Carlo Ancelotti recebe em média 14 faltas por jogo na Copa. Algumas nos arredores da área. As jogadas não encaixam. É possível ver a ansiedade de Carlo Ancelotti e de Francesco Mauri, à beira do campo, a cada oportunidade. A irritação do time, dentro das quatro linhas, quando o que foi ensaiado secretamente não se manifesta publicamente e o feitiço vira contra o feiticeiro em forma de contra-ataque para o adversário.
Nos bastidores, a informação é de que a carência do chamado gol de “bola parada” tem incomodado a comissão técnica. Carlo Ancelotti falou sobre a importância dela nos tempos de futebol com cada vez menos espaço para jogar na entrevista coletiva pré-jogo contra o Haiti. “A bola parada no futebol moderno é um aspecto muito, muito importante. Na estatística, 30% dos gols saem da bola parada. Creio que temos ferramentas porque temos batedores de escanteios muito bons e cabeceadores muito bons”, analisou o italiano.
Atual campeão inglês, o Arsenal tem um treinador especializado em bola parada. Nicolas Jover é o braço direito do técnico Mikel Arteta no time londrino e usou o conhecimento para diferenciar os Gunners dos concorrentes na conquista da Premier League e no vice da Champions League. Gabriel Magalhães é um dos trunfos da armadilha, mas testemunhou a diferença das engrenagens no clube e na Seleção.
“No clube, a gente trabalha muito diariamente. Quando a gente chega na Seleção, não tem tanto tempo. Com certeza, estou tentando ajudar da melhor forma possível para que a gente possa marcar de bola parada, porque sabemos que muda muito o jogo. Estou tentando passar para os meus companheiros um pouco do que nós fazemos lá”, admite o defensor.
Portugal contratou um dos gurus da bola parada. O escocês Austin MacPhee colaborou com o Aston Villa de Unai Emery na conquista da Europa League. O time inglês fez gol assim na final. Roberto Martínez tratou de levá-lo para a comissão técnica. Antes, o profissional havia ajudado a Irlanda do Norte a se classificar para a Euro-2016.
O encaixe depende dos melhores batedores. O melhor deles não é titular e outro se recupera de contusão. Em condições normais, Neymar é o cobrador de faltas e de escanteios. Na ausência dele, Raphinha pegou a missão até se contundir. Bruno Guimarães também assume a responsabilidade, assim como Vinicius Junior.

© ClubeFM 2021 - Todos os direitos reservados